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Órgão da Igreja Matriz é um dos 'ex-líbris' de Valongo

Órgão da Igreja Matriz é um dos 'ex-líbris' de Valongo
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Instrumento com quase 600 tubos, construído pela companhia inglesa Peter Conacher no século XIX, faz parte do património religioso do concelho de Valongo e delicia crentes e não crentes nas eucaristias ao fim-de-semana.

Salmo 150: "Louvai ao Senhor! Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento do seu poder. Louvai-o pelos seus atos poderosos; louvai-o, conforme a excelência da sua grandeza. Louvai-o com o som de trombeta; louvai-o com o saltério e a harpa. Louvai-o com o adufe e a flauta; louvai-o com instrumento de cordas e com órgãos. Louvai-o com címbalos sonoros; louvai-o com címbalos altissonantes. Tudo quanto tem fôlego, louve ao Senhor. Louvai ao Senhor".

Apesar da história do primeiro órgão remontar ao século III a.C, pela mão do grego Ctesíbio de Alexandria, e de um salmo da Bíblia Sagrada já lhe fazer referência como instrumento de louvor a Deus, por estar muito associado a manifestações de cariz profano (a festas, ao circo e a anfiteatros), a Igreja Católica foi conseguindo mantê-lo afastado dos locais de culto e das liturgias até meados de 1565, quando a utilização foi autorizada no Concílio de Milão.

A partir daí, o órgão de tubos começou a proliferar nos monumentos religiosos e passou a ser visto como um símbolo da música sacra, dando às celebrações uma maior grandiosidade e sonoridade. Sobreviveu aos tempos e, hoje em dia, o som melódico que atravessa as paredes das igrejas cativa novos e velhos, crentes e não crentes.

Um desses magníficos exemplares, construído no século XIX pela companhia inglesa Peter Conacher, encontra-se na Igreja Matriz de Valongo. "Este órgão é a cereja no topo do bolo. Temos a igreja que é começada a ser edificada em 1794, mas, por algumas circunstâncias, a parte arquitetónica só ficou pronta em 1807. Depois, com as invasões francesas, com o liberalismo e com o cerco à cidade do Porto e também com a extinção das ordens religiosas e como era do padroado das monjas do Convento de São Bento de Ave Maria, atual estação de São Bento, só foi adornada a partir de 1840", explica o historiador José Augusto Costa.

Segundo o especialista em arte sacra, a igreja foi sendo adornada "à custa de um imposto criado sobre o pão e também muito à custa de beneméritos" e "só por volta de 1880 é que está quase terminada como a conhecemos agora". "Para coroar toda esta magnificência, a junta da paróquia, por volta do ano de 1870, encomendou um órgão, mas quando veio não tocava. Meteram o organeiro em tribunal, deram-lhe tempo para que pusesse o órgão a tocar, mas este não funcionava e obrigaram-no tirá-lo. Nessa altura, na Igreja do Carmo, no Porto, uma empresa inglesa, a Peter Conacher, estava a fazer um órgão e então foi-lhes encomendado o que temos aqui neste momento", conta José Augusto Costa, avançando que do primeiro instrumento ficou a imagem da caridade para adornar o novo.

"Em termos artísticos, a ideia era cativar não só pelo som, mas também pela sua imponência e beleza. É um órgão já com algumas características técnicas próximas do século XX, que lhe permitem dar este magnífico som", completa o historiador.

Instrumento da antiguidade e da modernidade

Já um dos organistas da igreja matriz, Eduardo Silva, ressalva que "os órgão de tubo são vistos como instrumentos da antiguidade, mas também são da modernidade". "Basta vermos a banda sonora criada para o filme "Interstellar", em que a base de toda a banda sonora é um órgão inglês ou de tubos. É um exemplo de um instrumentos que teve muita importância no passado, mas hoje em dia é também muito importante e mesmo ao nível da composição é muito aproveitado", salienta o músico, anotando que o órgão que toca "tem quase 600 tubos e uma sonoridade muito interessante, embora não tendo muitos registos, mas é encorpado e adapta-se bem ao espaço para o qual foi desenhado".

O organista explica que o órgão de tubos "é muito semelhante à nossa voz". "Digamos que tem uma vontade própria, quase como se fosse algo natural, portanto, ele não se vai comportar da mesma forma todos os dias, ele vai variar com a temperatura, com a humidade, conforme a técnica que é utilizada, com o tipo de música que se toca e espera-se sempre algo diferente", afirma Eduardo Silva, acrescentado: "Costumo fazer a seguinte analogia. Os órgãos eletrónicos, que costumamos ter em casa, vão-se estragando como o tempo ao tocar. Este é exatamente o contrário, um instrumento desta natureza estraga-se se não for utilizado".

Valioso no canto litúrgico

O órgão da igreja de Valongo sofreu um profundo restauro em 1978, durante o qual foi eletrificado o ventilador, e, a partir daí, tocou, ininterruptamente nas celebrações dominicais aos sábados e domingos, sendo um instrumento muito valioso para o canto litúrgico.

"Funciona sempre que há os coros apropriados para os colocar, com os organistas adequados, quando há casamentos ou até um ou outro funeral e em encontros de coros, sobretudo no contexto da Páscoa e Natal. Também sempre que é proposto um ou outro concerto musical a igreja está disponível para essa colaboração. Estas iniciativas costumam ter boa adesão e participação, pois este órgão tem uma grande importância para a comunidade", refere Luís Borges Martins, padre da paróquia de Valongo, anotando que "vêm à igreja crentes e não crentes, porque gostam de ouvi-lo para serem capazes de se elevar um pouco mais na sua dimensão interior e de louvor a Deus".

O clérigo defende que a música sacra tem sido um elemento cativador dos fiéis mais novos. "Temos alguns jovens a receberem formação nesta área específica, não só no canto, mas também no instrumental e a participarem nas eucaristias. E eles têm essa apetência e vontade de utilizar o órgão e sentir que faz parte da celebração", enaltece o padre Luís Borges Martins, finalizando: "Os jovens procuram a sua realização e a beleza mais profunda e o canto ajuda a essa busca da alegria, da serenidade e da beleza da liturgia, que nos aproxima bastante de Deus e uns dos outros".

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