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Artista plástico Domingos Loureiro inspira-se na natureza e floresta

Artista plástico Domingos Loureiro inspira-se na natureza e floresta
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O artista plástico Domingos Loureiro é o autor da escultura de homenagem aos 180 anos da elevação de Valongo a concelho, obra retrata o rio Ferreira junto à aldeia de Couce e foi edificada no Largo do Centenário. Paisagista, inspira-se na natureza e floresta para criar obras em materiais não convencionais.

Natural de Valongo, onde nasceu em 1977, Domingos Loureiro desde muito cedo denotou especial aptidão para as artes, influenciado pelos trabalhos que o pai fazia com a madeira. O gosto foi crescendo com ele e, anos mais tarde, formou-se como artista plástico. Hoje em dia, como professor auxiliar na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, no departamento de Artes Plásticas, onde leciona Pintura e Projeto, este cadeira do último ano e com uma vertente mais autoral, e investigador do Centro de Investigação, procura passar aos alunos a importância do traço pessoal nas criações artísticas. Define-se como um paisagista que trabalha a natureza e a floresta.

"Antes de ser artista sempre percebi que tinha uma forma de pensamento muito criativo. E, comparativamente com os meus colegas e familiares, tive sempre aquela posição de olhar para as olhar para as coisas e nunca pensar só numa natureza efetiva daquilo que ela podia ser, mas na natureza hipotética de outras soluções. Portanto, era uma espécie de inventorzeco, porque era criativo", começa por recordar o artista plástico, continuando: "Depois, quando fazia desenhos ou pintava, tinha uma satisfação não diria insuperável, mas que estaria no topo daquilo que mais prazer me dava fazer, portanto, acabou por ser natural essa escolha".

O meio onde foi criado e as experiências vividas em crianças foram determinantes para o percurso que seguiu, como explica de seguida. "Com o passar dos anos fui percebendo que houve muitas coisas que foram importantes. Os materiais, certamente, porque estavam enraizados nessa natureza pessoal também e perceber que a arte não se fecha só numa tecnologia, mas que é uma forma de estar e pensar. E era onde eu encaixava perfeitamente", explica Domingos Loureiro, complementando: "Digamos que comecei muito cedo a perceber esse território onde me inseria, sem conhecer sequer o território".

No que respeita às fontes de inspiração, o artista plástico aponta dois caminhos que se cruzam. "Uma que é um percurso autoral, que vai sendo desenvolvido ao longo de vários anos, e a outra é a encomenda, em que a situação é implantada no contexto em que foi realizada. Na primeira situação autoral, a ligação com os espaços e com a interação com o espectador foi trabalhada algumas vezes ao longo do meu percurso e mesmo a técnica, não a ardósia, mas o sulcar de uma superfície de uma matéria menos convencional na pintura também tem sido regular no meu trabalho".

Usar como base superfícies diferentes das habituais telas, segundo o escultor, é o que mais o estimula no processo criativo. "Interessa-me o desafio que o material propõe. Trabalho com madeira muito tempo, sulcada também, e essa nasce de uma natureza mais familiar, pois o meu pai trabalhava com madeiras e eu dei muito tempo a dar-lhe apoio e a madeira acaba por se entranhar no nosso corpo. E quando comecei a pintar, a tela não me satisfazia tanto como a madeira. Recentemente, tenho trabalhado com o vidro e o vidro acrílico, pois mais uma vez o material convoca-me outra reação e o corpo e o pensamento obrigam a ter atitudes diferentes. A ardósia apareceu aqui, mas têm sido sempre materiais não convencionais. Trabalho também com o cobre, com frequência, não pintando sobre cobre, mas utilizando como um elemento que participa nas peças", explica o autor, acrescentando: "É uma natureza criativa que depende da imposição de alguma coisa que é uma espécie de constrangimento, que nos liberta e não que nos reduz. E o material tem essa particularidade no meu trabalho".

Olhando para várias obras de Domingos Loureiro, a tridimensionalidade é uma característica muito presente, pese o autor querer fugir um pouco desse conceito. E justifica: "Acredito que a natureza objetual do meu trabalho, e aqui quero fugir à palavra tridimensional, pois até uma tela é tridimensional e não bidimensional como muita gente pensa, é muito importante. Não penso só na superfície, mas em tudo o que está à volta e a sua apresentação. O cobre é uma dessas características, são peças laterais mas que têm uma participação ativa sobre a imagem que está na frente. Portanto, ela acaba por ter sempre esse campo escultórico, quer pela natureza objetual, quer pela utilização de materiais que, muitas vezes, não são os habituais da pintura, são da escultura, e que promovem essa natureza tridimensional".

"O que me interessa nessa relação é a ideia primeiro é o registo, quase uma pincelada que não acumula sobre a superfície, mas que vai dentro da superfície, e depois é a natureza tátil. Quando vemos alguma coisa com revelo parece que queremos tocar. Então é o meu corpo que toca pela primeira vez na realização e depois é o corpo de espectador que vai tocar e isso para mim é importante, jogar com essa relação afetiva e mais tátil", complementa o artista plástico, reconhecendo a natureza paisagística que existe no trabalho que cria, mais por uma relação "física e morfológica, do que por intencionalidade".

"O natural interessa-me porque me permite um conjunto de relações, pois encontramos na natureza revelações sobre nós próprios. Mantive sempre essa relação com o natural e, sobretudo com a floresta e, portanto, ela aparece sempre naturalmente. Depois há uma série de conjunturas que estão presentes e são questões de âmbito de uma natureza sociológica e filosófica de pensar onde estamos e quem somos e que acho interessante pensar a partir da natureza. A sua intemporalidade é ao mesmo tempo contemporânea", refere o pintor.

As obras criadas ao longos do anos não passaram despercebidas no concelho e aquando da celebração dos 180 anos da elevação de Valongo a concelho, em 2016, foi convidado pela autarquia a fazer uma peça com matérias da terra - a ardósia - em homenagem à região, inaugurada em janeiro do ano seguinte, no Largo do Centenário. O resultado foi uma escultura de 2,20 metros de altura por 3,60 metros de comprimento e cerca de uma tonelada de peso, que retrata o rio Ferreira junto à aldeia de Couce.

"Certamente sinto um enorme orgulho, sem pretensiosismos. Acho que estou duplamente orgulhoso, primeiro porque me convidaram para fazer este monumento ou como lhe quiserem chamar, ou objeto escultórico, como preferi designar, mas sobretudo porque o objeto é uma peça interessante, do qual me orgulho muito de ter sido feito. Ultrapassou as expectativas e surpreendeu-me mais do que estaria à espera como autor", afirma Domingos Loureiro, passando a descrever o processo criativo.

"Este trabalho é feito a partir de fotografia e é muito utilizado o computador. Há uma série de recursos utilizados. A ideia era fazer uma memória do que é a tradição de Valongo e da ardósia, mas quando me propus fazer esta peça ela não estava prevista ser feita desta forma. Inclusive o projeto que apresentei à câmara era diferente. Felizmente não ficaram chateados quando apresentei o resultado final", conta, entre risos, o autor da escultura, adiantando quais os maiores entraves para a construir: "Uma das dificuldades era como colocar a imagem de uma forma que ela fosse legível e ao mesmo tempo fizesse prevalecer o material que está na base. Acabou por ter esta curiosidade, que são as linhas todas colocadas, que remete um bocadinho para o quadro de giz e para o caderno que utilizávamos e os traços, que foram todos feitos à mão, remetem para peças escritas. Quando nos aproximamos parece que estamos a ver uma lousa pequenina, com uma série de rabiscos. Quando nos afastamos temos uma perspetiva fotográfica do local". Domingos Loureiro anota que a leitura que se faz muda "consoante estamos mais perto ou afastados da escultura e até a luz muda a leitura".

"As áreas de negro, também as de luz, mas sobretudo as de negro são áreas que têm vários volumes, várias profundidades e quanto mais nos afastamos, mais realista se torna a cena, mais construída é a imagem", salienta o artista plástico, apontado alguns detalhes como os "riscos verticais na segunda pedra, que mais não são do que dois esteios espetados no terreno, mas que é identificável a uma certa distância". "Essa é uma das riquezas desta imagem e deste trabalho", diz ainda.

Tanto pormenor foi conseguido graças a uma ferramenta muito próxima daquela que os dentistas usam para os tratamentos. "É a ideal para fazer miniaturas ou trabalhar áreas pequenas. É uma espécie de paradoxo, para uma peça tão grande em vez de usar maquinaria grande, usei uma muito detalhada, porque era algo desenhado à mão. Conseguimos ver que cada gesto é um risco e fez parte desse percurso da máquina. Foram dezenas e dezenas de horas à volta", explica Domingos Loureiro, anotando que a localização final teve um propósito.

"Achei que havendo o percurso pedonal de ligação com as serras do Porto, que a peça deveria ser uma peça de passagem, que jogasse com esta relação. Então a estrutura não só é paralela ao percurso, pensando sempre no movimento de baixo para cima, e a peça tem essa reação, como a imagem que aqui está é sacada no fim do percurso. Então há aqui uma ligação entre o início e o fim, mas ao mesmo tempo é uma imagem intemporal. Não percebemos que é atual ou se tem 180 anos, da celebração", finaliza o autor.

Embora este objeto escultórico seja a peça mais visível, a obra de Domingos Loureiro é bem mais vasta, contando com diversas exposições em vários pontos do país e que valem a pena serem visitadas e conhecidas.