Universidade de Aveiro

"Lixo humano". Publicação de docente sobre comunidade LGBTI+ causa indignação

Salomé Filipe

Já no ano passado, houve queixas sobre o mesmo professor, devido a publicações com alegado teor discriminatório

Foto André Gouveia / Arquivo Global Imagens

Docente da Universidade de Aveiro fez uma publicação na sua página pessoal do Facebook que está a indignar a comunidade académica. Já no ano passado, houve queixas sobre o mesmo professor, devido a publicações com alegado teor discriminatório.

O professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro (UA) a quem, no ano passado, a reitoria abriu um processo de inquérito, pela publicação, nas redes sociais, de mensagens de teor discriminatório, está de novo envolto em polémica no seio da comunidade académica. Na sua página pessoal do Facebook, Paulo Lopes fez uma publicação, há alguns dias, onde critica a comunidade LGBTI+, apelidando as pessoas que a ela pertencem de "mentes doentes", "pessoas profunda e mentalmente perturbadas" e "lixo humano", entre outros ataques.

Num texto que o professor universitário apelidou de "LGBTABCHmaisnaoseioquêparaoraioqueosparta!", o docente da UA dissertou publicamente sobre a campanha publicitária "ABCLGBTQIA+", promovida pela Fox Life e presente em cartazes que estão espalhados pelos transportes públicos do Porto e de Lisboa. Referindo-se a um "painel publicitário de uma estação, acerca de uns "binários" e de umas "identificações"", Paulo Lopes referiu: "Acho que esta bosta tem o nome de "ideologia de género" e constitui um dos grandes perigos civilizacionais que teremos que começar a enfrentar".

Numa lista de "alertas", o docente do Departamento de Física diz que as questões de género estão relacionadas com uma "ideologia" que "é intolerante", "quer impor as suas distorções sociológicas à força", "é disruptiva de uma sociedade sã", "somente floresce nas mentes doentias duma minoria", e que "está associada a pessoas profunda e mentalmente perturbadas". "Acho que estamos a precisar de uma "inquisição" que limpe este lixo humano (?) todo", defendeu Paulo Lopes, sugerindo, ainda, que chamar "Putin (o Grande), para meter todos estes "tramposos" nos eixos".

Reitoria diz que vai atuar "em conformidade"

A publicação da autoria do professor universitário difundiu-se, rapidamente, no seio da comunidade académica, levantando várias vozes que se insurgiram contra o conteúdo da mesma. Tanto que, esta quarta-feira, a reitoria decidiu tomar uma posição, tornando público um comunicado sobre o assunto.

"A Universidade de Aveiro defende a liberdade de expressão e de opinião, consagrada na Constituição da República Portuguesa, reconhecendo a separação das esferas pessoal e profissional", pode ler-se no mesmo, que foi enviado, também, a todos os alunos e profissionais da instituição. E afirma que "a Universidade saberá avaliar quaisquer condutas que possam interferir com esses últimos valores e propósitos e que se repercutam negativamente na imagem da instituição - e atuará em conformidade, com rapidez e firmeza".

No ano passado, a mesma reitoria abriu um inquérito ao professor em questão, também devido à publicação nas redes sociais de textos com alegado caráter discriminatório, na altura contra africanos, a orientação sexual e a covid-19.

"Repúdio"

Por seu turno, a Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), também em comunicado, deixa claro que que quando a liberdade de expressão "ameaça a integridade e bem-estar do outro, torna-se imperativa a tomada de um comportamento e atitude de repúdio". "Face aos recentes acontecimentos relacionados com um docente do Departamento de Física [...], a AAUAv vem por este meio manifestar o seu total repúdio à conduta pessoal do docente que, ainda que exterior ao ambiente académico, não deixa de afetar os estudantes da nossa Academia".

Os dirigentes associativos adiantam, ainda, que têm estado "a trabalhar conjuntamente com a reitoria da UA, no sentido de tomar todas as diligências possíveis e resolver de vez a situação que há muito se tem arrastado". Pedem, ainda, aos estudantes, que lhes façam chegar "testemunhos de situações que já viveram, relacionadas com a situação em questão".

Segundo o JN conseguiu apurar, dezenas de alunos já se reuniram para debater o assunto, tendo havido uma reunião, inclusive, em que participou o diretor do Departamento de Física. Ao JN Paulo Lopes, o professor visado, afirmou, via e-mail: "Desconheço qualquer "polémica" que esteja a acontecer no seio da comunidade académica, que aliás é, e deve ser, alheia aos meus direitos de realizar publicações em redes sociais". O docente mostrou-se disponível, ainda, para mais esclarecimentos posteriores.

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