Aveiro

Brejeirice ancestral decora os moliceiros

Brejeirice ancestral decora os moliceiros

Crica, regionalismo aplicado aos bivalves da ria de Aveiro, chouriço ele mesmo, enchido de porcinas carnes, mato nas bordas, daí se entendendo a espessa vegetação da orla ribeirinha. Tudo limpinho como os painéis que decoram os moliceiros, dignos de figurar em capas da saudosa "Gaiola aberta". Com toda a sombra dos mais picantes pecados.

Outrora milhares, recolhendo o fertilizante natural pela ria dado, os moliceiros genuínos, em mãos particulares, andarão pelas duas dezenas, somando-se os que prestam serviços turísticos nos canais urbanos de Aveiro, amiúde despojados da identidade dos barcos tradicionais à vela. "Aquilo é muito tuning", brinca José Oliveira, um dos últimos pintores de moliceiros, apenas Zé Manel quando assume o alter ego que convive com o pintor de arte murtoseiro.

Quem aprecia as pinturas brejeiras pensará estar a ver o que vai nas cabeças dos donos de barcos, e está, mas engana-se ao ver ali uma modernice destinada a chamar gente aos passeios pagos. As piadas de matriz sexual existem desde sempre, a par de temas religiosos ou patrióticos, bem como dos painéis profissionais, retratando os mesteres típicos da ria.

Mais do que um part-time ou uma terapia ocupacional, este é um trabalho de preservação de memória e de um estilo naïf local, diferente do que se encontra, por exemplo, no Tejo. "Quando venho pintar um barco, esqueço-me de quaisquer outros conhecimentos que possa ter", explica, notando a importância de manter os "tons de pele uniformes, sem nuances", a simplicidade do traço a negro, as "legendas em que os erros ortográficos são propositados" ou o rigor nos floreados (documentados em fotos da visita d'el-rey D. Carlos a Aveiro), alguns deles aperfeiçoados por Jacinto Lavadeiro, o homem que decorava os moliceiros antes de José Oliveira começar, há 20 anos.

"Às vezes, tenho de inventar as piadas, mas são os clientes, geralmente, que dizem o que querem", diz, explicando que pintar um moliceiro - apenas as pinturas decorativas - é trabalho para 70 horas e salvaguardando todas as suas outras guerras artísticas: "Isto é um nichozinho naquilo que eu faço".