Bairrada

Crise pode salvar qualidade do leitão

Crise pode salvar qualidade do leitão

Se a crise tem as costas largas, o leitão tem costelas estreitas, caras e deliciosas. É a mais consensual das nossas sete maravilhas gastronómicas. E o tempo de aperto afasta coisas más e constrói coisas boas.

Bairrada e leitão são indissociáveis, mas nem sempre é fácil estar na Bairrada e falar de leitão. Não se conta tudo, parece que ninguém quer criar inimizades e que o rastilho, nestes assuntos, pode ser muito curto. Mesmo assim, dá para perceber que a crise, sentida como em qualquer sítio, pode vir a ter efeitos positivos: afastar os animais de proveniências duvidosas, que proliferam com o aumento da procura, e puxar pela criatividade dos empresários.

Se perguntamos a alguém sobre restaurantes onde os leitões são cozidos antes de assados, para garantir despacho ao arrepio da qualidade, respondem-nos sempre que "todos os leitões são cosidos". No caso, uma letra faz toda a diferença, trocadilho que na oralidade é impercetível. É uma resposta bem humorada que encerra o assunto.

Embora haja quem diga que continuam a aparecer nos restaurantes vendedores de aberrações (do ponto de vista bairradino) como leitões congelados ou embalados em vácuo, idos de Espanha, ou contentores de produtos similares chegados de França, parece claro que essa realidade já foi muito mais intensa.

É a crise. José Vidal, gerente do mítico restaurante que lhe leva o apelido, em Águeda, admite as quebras de faturação, mas insiste na qualidade. Se alguém chegar a um restaurante e ouvir que já não há leitão, tal deve ser considerado um bom sinal, e isso acontece por ali. Já José Pires, dono da Quinta dos Três Pinheiros, que presidiu durante 17 anos à Associação de Restauração e Hotelaria do Centro, está a investir, e apostou forte no bom leitão: "Temos condições para ter sucesso, meios humanos e uma gastronomia única. Se metemos a crise na cabeça, é um problema". E no Rei dos Leitões criou-se um conceito para gente endinheirada. "Não quisemos expulsar os outros, mas chamar estes", diz Pedro Rodrigues.

Como lembra José Vidal, "há três maneiras de comer leitão: quente, morno ou frio". Nem pensar em reaquecê-lo. Já o negócio pode ser reaquecido, relançado, repensado. Portagens e preços dos combustíveis têm afastado muita gente, e alguns restaurantes fecham portas. Os bons, porém, são os que sabem dar a volta.