Aveiro

Élio Maia: "Já não há condições para o autarca empreiteiro"

Élio Maia: "Já não há condições para o autarca empreiteiro"

Dez perguntas a Élio Maia, presidente da Câmara de Aveiro, não sabe se se recandidata, mas avisa que quem ocupar o lugar vai passar mais sete anos preocupado em pagar contas

1. Quando chegou à Câmara, as Finanças estavam como esperava?

Não. Nunca pensei que a situação fosse tão má. O passivo rondava os 280 milhões de euros. Os primeiros três anos foram desesperantes. Todos os meses, era um drama para pagar os salários. Até à operação de saneamento de 2008, mesmo estando parados, todos os dias devíamos mais dinheiro. Quando chegava à Câmara, tinha dezenas de pessoas à minha espera a pedir-me para pagar dívidas, que nalguns casos já tinham 17 anos, e não acreditavam que a Câmara não tivesse cinco mil euros para lhes pagar. Foi muito violento.

2. O que tem pena de não ter feito nestes oito anos?

A manutenção e melhoramento dos 700 quilómetros de vias do concelho, que estão cheias de buracos e em muito mau estado, pois desde 97 deixou de haver dinheiro para a requalificação das estradas. Com 30 milhões de euros, punha-as a brilhar.

3. Qual foi o grande erro que cometeu?

Não me lembro de nenhum. Não sou rápido no meu processo de decisão. Gosto de amadurecer as coisas, de envolver outras pessoas a tomar decisões. Quando se está a gerir dinheiros públicos, é preciso ter muita cautela e prudência.

4. E que de que é que mais se orgulha?

De poder ir a qualquer restaurante, agência de viagem ou fornecedor e não ser assaltado por pessoas a pedirem--me para pagar dívidas da Câmara. A maior riqueza que podemos ter é a nossa credibilidade.

5. Agrada-lhe o modelo das comunidades intermunicipais?

Até ao último dia da minha vida, serei um regionalista convicto. Não vejo outra solução para uma administração eficaz do território se não a de um gestão mais localizada e desconcentrada. Tudo quanto seja aproximar a governação dos eleitos tem o meu apoio. O período mais feliz da minha vida foi os 16 anos em que fui presidente da Junta de S. Bernardo. Foi uma experiência rica poder ajudar a construir uma comunidade e a resolver os problemas concretos das pessoas.

6. Está de acordo com a fusão de freguesias?

É um disparate. Perde-se proximidade e dinheiro. Os presidentes de junta andam todos no carro deles e com gasolina e refeições paga do seu bolso. Com as fusões, as freguesias vão ter mais custos. Espanta-me que essa gente não saiba fazer contas. Não se poupa nada, porque as transferências vão ser acrescidas do prémio de 15% que é dado às freguesias que se agregam.

7. Já decidiu se se recandidata ou não?

Não excluo qualquer cenário. Admito a recandidatura se houver uma vaga de apoio, lembro que foi como independente que consegui a maior votação para presidente da Junta de S. Bernardo. Mas ainda não decidi. Estamos a cinco meses das eleições. Custa-me a compreender tanta pressa e angústia. Ainda não sabemos quem são os candidatos...

8. PSD E CDS apoiam Ribau Esteves e o PS apresentou Eduardo Feio.

Atendendo a duas decisões tomadas pelos tribunais e aquilo que está escrito na lei da limitação dos mandatos, não me parece que uma dessas alegadas candidaturas respeite a lei de limitação de mandatos.

9. Se não se recandidatar, quem gostaria que fosse o seu sucessor?

Nos próximos sete anos, seja quem for o presidente da Câmara, terá de ter como prioridade pagar contas. Não quero que venha para aqui alguém despesista. Já não há condições para a figura do autarca empreiteiro, que fazia sentido no tempo das vacas gordas. O mais simples é mandar fazer uma obra. Não custa nada. O problema é pagar... Eu também gostava muito de ter um BMW e uma casa na praia, mas sei que não tenho condições para isso.

10. Ao fazer o ajustamento na Câmara foi um Gaspar antes do tempo...

Arranjem-me uma comparação melhor (risos). O Governo afastou as pessoas do centro das suas preocupações, para pôr no pedestal as Finanças Públicas. Com Vítor Gaspar, o cidadão passou a ser um meio para as Finanças estarem bem e de saúde. Nós, em Aveiro, fizemos o contrário. Andamos contra a corrente. Baixámos o IMI, IRS e a derrama, abdicando de dez milhões de euros anuais de receitas para que esse dinheiro fique no bolso dos cidadãos que o ganharam. v

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