Despedida

Terrenos do Estádio Mário Duarte vão dar lugar à ampliação do hospital

Terrenos do Estádio Mário Duarte vão dar lugar à ampliação do hospital

É um pedaço da história do futebol português que desaparece. Inaugurado em 1935, o Estádio Mário Duarte albergou, durante décadas, os sonhos desportivos dos adeptos do Beira-Mar.

Viu-se ali jogar os "grandes". Viu-se ali o clube aurinegro subir à glória e descer às agruras. Agora, vai ser demolido, para dar lugar à ampliação do hospital de Aveiro, situado mesmo ao lado. Ontem, os aveirenses puderam despedir-se do "velhinho", como o apelidam carinhosamente. E levar consigo cadeiras das bancadas, relva e outras recordações.

Dezenas de adeptos rumaram ao estádio, logo de manhã. Muitos deles os mesmos que, há cinco anos, puseram mãos à obra numa operação de limpeza do espaço, voluntariamente, quando o Beira-Mar "caiu" para as distritais e voltou a jogar no Mário Duarte - que já estava praticamente desativado -, deixando temporariamente o "novo" Estádio Municipal.

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O "velhinho" foi o estádio que, ao longo dos anos, uniu Aveiro em torno do desporto. Ontem, tiraram-se fotografias e disse-se adeus.

Casal vivia nos antigos balneários

Um casal sem-abrigo vivia, há meia dúzia de anos, nas traseiras do estádio Mário Duarte, nuns antigos balneários. Com a ajuda do clube, ontem, saíram do local para uma pensão da cidade de Aveiro, cuja estadia inicial será custeada pela Direção do Beira-Mar, enquanto os dois se tentam restabelecer.

Levou relva para fazer surpresa a amigos idosos

Manuel Sanches, de 51 anos, acocorou-se num canto do relvado e começou a cortar quadrados de relva. Natural de Lisboa, mas a viver em Aveiro há 19 anos, só tinha ido ver um jogo ao estádio uma vez. "Vim hoje [ontem] porque percebi que ia ser um dia histórico. Levo relva para dar a pessoas idosas que conheço e que sei que não podem vir cá e gostavam", explicou. "E também vou levar duas ou três cadeiras. Duas para mim, outra para fazer uma surpresa", confidenciou Manuel, a quem nem o facto de ser "de outro clube" o impediu de comparecer.

Memórias da adolescência vão ficar no jardim de casa

Bruno Rojão, de 32 anos, recorda-se bem dos momentos que passou no Mário Duarte. "Até aos 14 ou 15 anos, eu e os meus amigos vínhamos sempre ver os jogos. Levo um remendo da rede da baliza e cadeiras, que vou colocar no espaço exterior de casa, onde faço uns churrascos com amigos", adiantou Bruno. Ontem, a sua filha, Carlota, entrou ali pela "primeira e última vez". Um dia, o pai vai contar-lhe o que viveu. "Estávamos sempre ali a torcer, em cima da entrada para os balneários, e ficávamos deitados à espera que os jogadores passassem e nos tocassem nas mãos", recordou, nostálgico.

"Dá-me um aperto no coração. Beira, Beira"

As lágrimas vieram-lhe aos olhos e a voz embargou-se, mal pisou o relvado. Lurdes Modesto, de 74 anos, foi buscar "uma cadeirinha" para ela e outra para o marido, Júlio - "sócio há 55 anos"-, "para meter na varanda". "Isto dá-me um aperto no coração. Compreendo, porque é para o hospital, mas custa. Beira, beira", dizia Lurdes, a terminar cada frase com o grito de guerra do clube. "Vi cá jogar o Eusébio, o Porto, o Sporting... todos. Depois, ficámos pobrezinhos, mas eu acompanharei sempre o meu Beira-Mar", prometeu a adepta, de cachecol ao peito e brincos amarelos nas orelhas.

Foi ali que se apaixonaram pelo futebol

André Pinho, de 26 anos, Luís Oliveira, de 27, e Tiago Miranda, de 24, não enganam: são beiramarenses de coração. "Foi o estádio onde comecei a ver futebol, com o meu pai, aos quatro ou cinco anos. Aqui, apaixonei-me pelo futebol", recordou André. Todos levaram consigo cadeiras, ontem, "para recordação". "Crescemos com este estádio. Faz parte da nossa infância. Vamos guardar o que levamos com um sentimento de carinho", garantiu Tiago. Pena, pena, brincaram, foi "não dar para levar as balizas", onde tantos golos viram entrar.

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