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Tragédia de Entre-os-Rios: "A queda da ponte tirou-me a juventude"

Tragédia de Entre-os-Rios: "A queda da ponte tirou-me a juventude"

Felicidade perdeu a mãe e um irmão. Trabalhava em Lisboa e teve de regressar a Castelo de Paiva para cuidar da família. No dia do desastre ia dizer à mãe que queria uma filha com o nome dela.

Naquele dia, maldita noite, há 20 anos, Felicidade tinha tentado várias vezes falar com a mãe para lhe dizer que se um dia tivesse uma filha ela teria o nome da avó. Dias antes, um comentário ficou-lhe a remoer na cabeça, "tenho um nome escolhido pela realeza de Espanha, mas não tenho nenhuma neta chamada Leonor". Telefonou-lhe do aeroporto de Lisboa, onde trabalhava como agente da PSP, para o café vizinho da família, em Raiva, Castelo de Paiva, mas não conseguiu dar a novidade. Do café disseram-lhe que tinha ido dar uma volta. Não associou o passeio à excursão que a mãe lhe tinha falado. Aos 23 anos, a viver na agitada Lisboa, os discursos dos pais são filtrados e datas não são importantes. Nesse domingo à noite, enquanto descansava em casa para ir pegar à uma da manhã, ouviu na televisão a notícia da queda da ponte. Assustou-se, mas nunca pensou que o autocarro fosse aquele onde ia a mãe, de 64 anos, e o irmão Adelino, de 39, um dos seis que o falecido pai tinha deixado.

Quando falou com o irmão Augusto, não havia ainda certezas, mas o espírito de polícia deixou-a sem dúvidas. "Às 4 da manhã fui para estação do Oriente à espera do primeiro comboio". A viagem foi um castigo, amplificado por quem só queria ajudar. "Não parava de chorar e ao lado iam duas senhoras que pensando que estava a sofrer por algum namorado, repetiam, "não vale a pena ficar assim, pense no que se passou em Castelo de Paiva, isso é que não tem remédio"". Não pensava noutra coisa, mas não conseguiu dizer-lhes quem era.

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