Isolamento

Polícias no cerco de Ovar choram pela família

Polícias no cerco de Ovar choram pela família

Jorge Pimenta, 34 anos, saiu de casa, no dia 17, com a firme convicção de que regressaria a tempo de cantar os parabéns ao pai. Todavia, na tarde desse dia, foi decretado o estado de calamidade pública em Ovar, e o comissário da esquadra da cidade já não voltaria para junto da família.

Até hoje, dia em que a filha celebra nove meses. "Custou-me imenso não passar o primeiro Dia do Pai com a minha filha. Chorei quando vi uma publicação nas redes sociais feita pela minha mulher e não consegui passar das primeiras palavras", recorda.

Apesar do sofrimento causado pela distância, o comissário Pimenta mantém-se, há 11 dias, a viver junto de 23 dos 57 polícias da esquadra da Ovar, num hotel pago pela PSP. "Um capitão nunca abandona o barco", justifica o comandante "orgulhoso dos homens que se voluntariaram" para abandonar temporariamente a família, mas "também dos que, indo a casa, estão disponíveis para tudo". "Naturalmente que isto afeta a nossa relação familiar e há momentos em que vacilamos, porque aqui não há super-heróis. Mas o facto de sabermos que estamos a salvar vidas dá-nos alento", admite.

"Não foi fácil adaptar-me. O hotel só é bom quando vamos de férias com a família. Há horas, principalmente à noite, que custam muito a passar. Mas estamos cá por uma boa causa e sei que um dia isto vai passar", confessa António Matos, 52 anos, 30 dos quais como polícia.

Espírito inquebrável

Segundo este agente, que deixou em casa mulher e uma filha de 13 anos com uma doença dos pulmões, "o problema das saudades não se resolve". "Espera-se apenas pelo dia seguinte. Nesta altura, não há nada para resolver e é isto que mais me está a custar", diz.

Embora as lágrimas teimem em fugir pelos olhos do agente Matos, já sem a noção do tempo que passou, o seu adjunto de comando, chefe Ramos Costa, sente que o "efetivo está determinado a ajudar toda a gente". "O grande grupo que não vai a casa está sempre disponível, abdicou das folgas e só quer fazer o melhor possível pela população de Ovar. Não temo que o espírito desta equipa seja quebrado. Só há o perigo de alguns elementos, por questões de saúde, deixarem de prestar o seu serviço", alega quem também está a viver no hotel, longe da mulher, filhos e netos.

Silva Santos, que passou 34 dos 36 anos de polícia em Ovar, dá-lhe razão. "Estou disponível para o que for preciso. A nossa missão é olhar pela segurança das pessoas e a mim e aos meus colegas não custa nada trabalhar mais horas do que o normal", assegura o polícia, "chocado" com a situação em Ovar, mas que acredita que a colocação, em permanência, dos polícias num hotel foi "uma medida essencial para proteger a família de todos".