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Primas mantêm tradição e vestem-se de fogaceiras

Primas mantêm tradição e vestem-se de fogaceiras

Gabriela Nunes, de sete anos, vai vestir-se pela primeira vez de branco dos pés à cabeça, com a faixa colorida, que diz preferir em azul, a traçar-lhe a cintura. Vai carregar a fogaça até ao castelo. É estreante entre as quatro primas fogaceiras que mantêm a tradição das mães e avós e desfilam pelo centro de Santa Maria da Feira. Amanhã, 370 meninas vão cumprir o voto da comunidade a S. Sebastião no cortejo da Festa das Fogaceiras.

Gabriela sabe que há 515 anos o povo feirense "prometeu a S. Sebastião uma festa" para acabar com a peste. "Quando a festa parou, a peste voltou. Por isso é que levamos sempre a fogaça para a peste nunca mais voltar".

A caçula da família só tem medo de deixar cair a fogaça. E a irmã Victoria Nunes, de 10 anos, que participa pela quarta vez, avisa-a que têm que andar muito. "Continuo a ir porque é fixe", atira Victoria. No cortejo vão também as primas Bianca Nunes, de nove anos, e Victoria Lima, de oito. Ou não fosse tradição de família.

A mãe das irmãs, Marta Nunes, lembra-se de deixar cair a fogaça quando era fogaceira e a sua prima Áurea Lima teve a oportunidade de entregar a maior de todas, de cinco quilos, ao bispo do Porto. Mas nunca nenhuma das mulheres da família carregou o castelo, sorte que calha às mais velhas do cortejo. Talvez Bianca vá ser a primeira: "Quero ir até ser grande, quero levar o castelo".

significado especial

As primas dizem que no dia não lhes doem os pés nem os braços de carregar o pão doce feirense à cabeça. "Podemos pôr ao ombro", avisa Victoria Nunes. "O truque para segurar a fogaça é fazer buracos com os dedos", diz.

Os vestidos estão prontos. Victoria Lima vai levar os sapatos e as luvas que eram da mãe, Áurea. Só Victoria Nunes é que não gosta de se ver de vestido, mas a mãe Marta confidencia que "ela vai para o espelho antes de sair" e recorda o que a filha disse no final do primeiro cortejo: "Quero ir todos os anos". A avó Zulmira Nunes não podia estar mais babada: "Adoro ver as netas. Esta festa tem um significado especial. Lembro-me que em janeiro era uma ansiedade".

Eram outros tempos, como os do avô Luís Nunes, que não podendo levar a fogaça por ser rapaz, arranjou outras formas de desfilar. "Vou desde os 12 anos. Fui pela Juventude Operária Católica, como autarca, e agora como confrade da Confraria da Fogaça da Feira". Poder ver as netas e sobrinhas é especial. "Fico emocionado. Venho mais cedo para lhes dar apoio". No final, toda a família se junta para comer a fogaça. v

370 meninas

Amanhã, 370 meninas feirenses vestidas de branco vão participar no cortejo cívico pelo centro histórico da Feira, de fogaça à cabeça, para cumprir o voto do povo ao S. Sebastião. É a mais antiga tradição do concelho.

200 vestidos

Há quem o faça na costureira, quem aproveite o vestido branco da comunhão e quem recorra ao Cantinho das Fogaceiras, espaço da Câmara que este ano emprestou 200 vestidos e sapatos. São 60 os voluntários que preparam as meninas amanhã.

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