Braga

"A cidade cresceu de forma pouco democrática", dizem especialistas

"A cidade cresceu de forma pouco democrática", dizem especialistas

Mesquita Machado está ao leme de Braga há 36 anos. Reeleito nove vezes consecutivas com maioria absoluta, empenhou tudo no crescimento urbanístico. Mas acautelou o futuro? Especialistas dividem-se.

O desenvolvimento da cidade e o poder autárquico "estão interligados", defende Miguel Bandeira, presidente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho (UM) doutorado em Geografia Humana. "Braga cresceu à luz de uma ideia de cidade personalizada num conjunto restrito de pessoas que se manteve durante quase 40 anos, tal como o seu árbitro". A falta de alternância democrática, critica, "penalizou o debate sobre a cidade".

Quando se questiona em quê, a resposta é unânime: na construção. "O boom desregrado vivido nas últimas décadas fez com que a cidade perdesse identidade e deixasse de apresentar qualidade de vida para as populações", considera Luís Bragança, do Departamento de Engenharia Civil da UM. "A especulação imobiliária ganhou vantagem em detrimento dos espaços públicos, que perderam qualidade e deixaram de ser vistos como prioridade".

José Mendes, vice reitor na UM, discorda, sobretudo no que diz respeito ao centro da cidade, que considera "um exemplo de boas práticas em Portugal". Expõe argumentos: "Pela beleza, pelas soluções ao nível do arranjo do espaço exterior, da dinamização do comércio, estacionamento, circulação e pedonalização" (ver entrevista).

A explicação não colhe a simpatia de Miguel Bandeira, que acusa os protagonistas do Poder Local de nunca terem usado o conceito de sustentabilidade na estratégia urbanística. "Se o tivessem feito, teriam conciliado o crescimento com condições de vida favoráveis para as gerações futuras". Bandeira recorda até o slogan eleitoral de Mesquita Machado nas últimas eleições: "Braga sempre a crescer". Esta mensagem, explica, "em qualquer cidade europeia seria o suficiente para eliminar o candidato; em Braga, constituiu um atrativo." O geógrafo entende o que moveu os munícipes. "Apoiaram o crescimento não sustentado porque vinham de uma realidade deficitária dos anos 1970. Não tinham casa, nem alfabetização, eram compulsadas a emigrar. Não queriam voltar a isso, claro".

Défice de espaços verdes

Se a oferta habitacional é considerada excessiva para a densidade populacional - oferta de alojamentos é o dobro do crescimento demográfico -, já os espaços verdes parecem ter estado fora das prioridades de Mesquita Machado. Luís Bragança aponta a falta de manutenção. "Existe uma degradação acentuada e uma desorganização evidente dos espaços verdes". Miguel Bandeira vai mais longe. "Em 40 anos, não houve um espaço verde novo na cidade. O Parque da Ponte está na planta desde o séc. XVI, o jardim de Santa Bárbara é dos anos 50, o projeto para o Parque do Monte Picoto não passa de uma espécie de Disneylândia".

Braga, diz, "está num impasse. Perdeu para Guimarães o título de cidade das humanidades e também não é industrial. Resta o comércio, que é permeável à crise, e os serviços". A solução para a reafirmação da cidade, antecipa, "pode passar pela ciência, nomeadamente pelo centro de nanotecnologia".

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