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Cientista Rui Reis diz que "não há pior opção do que ficar em Portugal"

Cientista Rui Reis diz que "não há pior opção do que ficar em Portugal"

Queixa-se da falta popularidade em Portugal. "Se ganhasse o Nobel, ninguém saberia". Rui Reis, 45 anos, foi sempre considerado jovem promissor no país.

Em 1998, fundou o Grupo 3B's, nas Taipas, Minho, um dos três melhores centros de investigação da Europa, é o cientista nacional com maior número de publicações, e tem arrecadado os mais importantes prémios internacionais. Ser promissor sabe-lhe, por isso, a pouco. "Quero que reconheçam o meu trabalho", exige.

Sem papas na língua, Reis oscila entre o cientista pop e o cientista maldito. Tem um preço: "Em Portugal, com os anticorpos que tenho, nunca serei eleito para nada."

Olhamos para as paredes do seu gabinete, forradas a prémios e viagens, e perguntamos por que razão ficou em Portugal. Foi opção ou está arrependido?

Não devia dizer isto porque vai ser usado contra mim, mas gosto muito de dificuldades. Não daria o mesmo valor às coisas que fiz cá se as tivesse feito lá fora. Por outro lado, embora viaje 220 dias por ano, há coisas em Portugal de que gosto muito. O terceiro fator é que passou o meu tempo de emigrar. Se fosse agora embora, o que aconteceria às pessoas que trabalham comigo e que me ajudaram? A certa altura, deixamos de ter o mesmo grau de liberdade. Não me imagino a chegar ao pé do reitor da Universidade do Minho, depois de me ter ajudado tanto, e dizer: "Ofereceram-me mais dinheiro, vou embora".

Isso não é uma forma de reconhecer que Portugal não é assim tão mau para desenvolver projetos?

Não. Não há pior opção do que ficar em Portugal. O ambiente, a meritocracia, o financiamento, a transparência, são tudo coisas que, por mais que se diga que funcionam muito bem, não são feitas da forma que aprecio.

Só consegue viver em Portugal porque passa mais de metade do ano fora?

É uma boa análise. Se não estivesse sempre a viajar, não sei se conseguiria viver cá. Quando estou muito tempo fora, tenho dificuldade em regressar. Chego, vejo o noticiário e começo logo a irritar-me. Sobretudo agora, que entramos nisto de nivelar tudo por baixo, a ver se ficamos todos iguaizinhos. E depois queixam-se que a economia não anda.

A crise está a levar as pessoas mais qualificadas a sair do país. A exportação de inteligência preocupa-o ou o facto de a ciência operar no plano internacional retira-lhe sensibilidade para o drama?

Não é especialmente mau para a ciência portuguesa haver portugueses a trabalhar nas melhores instituições internacionais. Mas era preciso garantir que tudo o que demorou tantos anos a construir cá não vai perder-se. Quando se perde um especialista numa determinada área, essa área vai ao charco. No entanto, há algum exagero quando se fala na fuga de cérebros. Estão a sair, mas não com a dimensão que se diz. E não é verdade que estejam a sair os melhores. Podem estar a sair os que têm mais potencial, é diferente. Os cientistas mais conceituados ainda estão cá. Eu estou cá.

É das raras pessoas que assume sem pruridos que é bom, que gosta de prémios. O seu sucesso é incompatível com a humildade?

Já me perguntaram isso algumas vezes, até já me perguntaram se sou o Mourinho da Ciência. Eu digo que sim. Tenho alguma arrogância profissional, porque ela é necessária para crescer, para marcar posições internacionais. A Ciência obriga muito a ter autoestima e às vezes a forçá-la ainda mais.

O Grupo 3B's (biomateriais, biodegradáveis e biomiméticos) é considerado um dos três melhores centros de investigação da Europa. Já disse que o objetivo é colocá-lo entre os três melhores do mundo. Ambicioso como é, o que o impede de querer ser o melhor?

A diferença de condições. Quando digo que quero competir com os maiores da Europa, já estou a competir com coisas tão complicadas como Cambridge, Oxford, Chalmers na Suécia ou o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, que têm uma dimensão e uma capacidade financeira incomparáveis. Nunca vou criar na Universidade do Minho algo que tenha o mesmo peso para um investigador que fazer um doutoramento em Harvard.

Qual é o orçamento anual do Grupo 3B's?

Temos uma carteira de projetos de 34 milhões de euros. Desse montante, 20 milhões são para a Universidade do Minho. Depois, temos um financiamento base da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Para o laboratório associado todo, são 330 mil euros por ano. Para o Grupo 3B's, são 170 mil euros. Não chega para pagara água, luz e gás. É absurdo.

A Ciência é competição, mas também colaboração. Por que razão fica sempre tão irritado com o destaque dado ao IPATIMUP, no Porto, ou à Fundação Champalimaud, em Lisboa?

Tenho de ser agressivo por causa do financiamento, que nunca muda. Se todos fôssemos reconhecidos pelo que fazemos, não havia motivo para criticar. Mas a imprensa insiste em criar vedetas científicas. Será que o destaque dado a alguns cientistas é justificado? Fizeram mais? Em quê? Há uma coisa que me irrita muito desde muito novo, que é a questão geracional. Lá fora, estou sempre nos patamares mais elevados, em Portugal sou sempre só um jovenzinho que fez coisas muito interessantes!

Mas um jovem promissor...

Mas já estou farto de ser jovem promissor! Isso é usado para prejudicar-me, não é um elogio. Dou um exemplo: nunca fui convidado para a ir à Sic Notícias, e no entanto vão lá pessoas de ciência que nunca fizeram nada comparado com o que fazemos aqui.

Sente-se mais bem tratado lá fora do que cá dentro?

Muito mais. Repare, nunca fiz parte do conselho de administração para a FCT, em que estão os melhores cientistas portugueses. Estamos a falar de estruturas com 60 pessoas. Será que não estou entre os 60 melhores? Também nunca estive em nenhum painel de bolsas. Será que em painéis com 200 pessoas não haverá ninguém do 3B's que mereça lá estar?

Os seus pares não gostam de si ou desconfiam de si?

Sempre houve bloqueio geracional. Se calhar, fazia sentido quando tinha 30 anos, agora não. Sou diretor de um laboratório associado, sou professor catedrático , os meus indicadores científicos são os que se sabem. Não compreendo.

Parece estar zangado por ter conseguido tudo cedo...

Se calhar [Risos]. Quando criei o 3B's, era proibido um professor auxiliar dirigir um grupo de investigação. As pessoas riam-se quando dizia que ia ter um edifício próprio. Sempre foi assim. [levanta-se para mostrar a fotografia de grupo no dia do doutoramento] Ninguém tem um grupo de investigação antes de se doutorar.

Que idade tinha?

Tinha 32 anos. Doutorei-me em 1999, um ano depois de ter criado o 3B's.

O que o fez trocar o Porto pelo Minho?

Quando mudei para cá, havia muita gente que dizia que eu era tolinho. Mas percebi que a área dos plásticos em aplicações médicas ia ser muito interessante. A UM é a única que tem uma licenciatura de polímeros.

Nos últimos quatro anos, o investimento em Ciência caiu 200 milhões. Uma retração significaria estagnação ou desabamento?

Pode desabar, porque as instituições são ainda muito frágeis, não em termos científicos mas de funcionamento. É difícil manter investigadores sem dinheiro.

É um crítico feroz do centralismo. A culpa é de Lisboa ou do Norte e das restantes regiões, que não sabem impor-se?

Devíamos ter uma voz no Norte que não admitisse certo tipo de coisas. Eu jamais admitiria o que aconteceu no Porto de Leixões, a privatização da ANA, a desculpa das mercadorias para justificar o Lisboa-Madrid. Jamais admitiria que a TAP não ligasse ao nosso aeroporto [Sá Carneiro] e depois, às tantas, ainda nos tiram a Ryanair.

Olha para o problema do ponto de vista dos centralistas ou da nossa inércia para o combater?

Há algum erro de discurso. Não há ninguém a falar pela região, a apresentar os seus sucessos e as suas queixas. E todos temos culpa neste sentido: é mais bem visto, mesmo no Norte, alguém que não critique o centralismo do que alguém considerado nortenho que defende a região.

É o caso do Rui Rio?

É. O actual candidato à Câmara do Porto é do mesmo partido [PSD] e é completamente diferente. Mas Rui Rio é muito mais bem visto. Tem feito pouco pelo Porto e pelo Norte, não se consegue identificar uma obra que tenha vindo dali, mas é mais bem visto porque nunca iria dizer para um congresso que eles são "sulistas, elitistas e liberais". Esse é o problema.

Mantém que a desigualdade podia resolver-se com a regionalização?

Claro. Não sei se resolveria totalmente o problema, mas vejo muitos exemplos de sucesso noutros países. Aqui fala-se sempre apenas das autonomias espanholas, mas há muitos outros exemplos, como os cantões suíços ou os estados americanos. A divisão entre poder regional e poder central facilitaria muito a gestão de processos.

A ciência depende do poder central. Alguma vez teve saudades de Mariano Gago?

Quase todos os dias, embora tenha sido um dos maiores críticos dele. Para já, é muito melhor ter um ministro do que um secretário de Estado. O aspecto que mais valorizo num ministro da Ciência é que considere a Ciência pelo menos tão importante como o Ensino Superior. O segundo aspecto é que tenha peso político verdadeiro, o que significa ir a um Conselho de Ministros e conseguir convencer as pessoas de que é preciso mais dinheiro para isto ou alocar mais verbas para aquilo. Ele fazia isso.

Gago serviu de trampolim para a ciência em Portugal?

Sim, até pela longevidade que teve no cargo. E depois, também não houve quase mais nenhum. Tivemos o Pedro Lynce, mas tinha então pouco currículo cientifico, e a Graça de Carvalho, hoje eurodeputada, que tinha alguma influência na Europa. Não tivemos mais ninguém.

O que é que Gago tinha?

Tinha uma característica muito importante: mesmo nos tempos em que houve cortes, tinha os cientistas todos com ele, ao contrário do que agora acontece. Eu estava no balde dos não-protegidos dele, porque já na altura criticava o financiamento que beneficiava sempre os mesmos. Só no fim a nossa relação melhorou. Ele percebeu que o que eu dizia era verdade. Tenho saudades do peso que ele tinha em Bruxelas. Cheguei a estar lá em reuniões e a ciência portuguesa tinha outro outro respeito. v

Quando o presidente da República inaugurou o 3B's e perguntou o que de melhor havia aqui, é verdade que respondeu: "Eu"?

Não. Podia ter dito isso, mas não disse [Risos].

Quantos artigos já publicou e quantos prémios já ganhou?

Prémios, 14 ou 15. Artigos são 650, 450 em revistas.

Prémio importante?

O George Winter, em biomateriais. E o doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Granada.

Média de curso?

17 valores. A melhor de sempre em Engenharia Metalúrgica e de Materiais.

Admitia ser autarca?

Sim. Ou presidente de qualquer coisa que pudesse ser útil à Região Norte.

E ministro da Ciência?

Gostava. Nunca poderei ser, porque nunca irei para Lisboa. Só se me deixassem trazer o Ministério [Risos].

E reitor?

Acho difícil. Em Portugal, com os anticorpos que tenho, dificilmente serei eleito para alguma coisa.

Tem algum hóbi?

Futebol, cinema, playstation. Às vezes, passo a tarde a jogar com o meu filho. Gosto de ganhar, mesmo contra ele. Mas ali, a maior parte das vezes perco.

O 3B's está para a Ciência como o FCP para o futebol?

Já dei palestra com o livro do Mourinho à frente. Tal como o FCP, o 3B's faz coisas impressionantes para a sua dimensão.

Em quem vai votar nas autárquicas?

No Menezes. Raramente voto PSD, mas vou votar nele. Conheço muito bem o candidato do PS [Manuel Pizarro] e tenho a melhor opinião dele. Mas, neste momento, precisamos muito de algumas características do Menezes, mesmo as mais popularuchas ou agressivas.