Tradição

Das bifanas de Braga à saudade do rancho em Vila do Conde

Das bifanas de Braga à saudade do rancho em Vila do Conde

Ruas sem as multidões de outros anos. Mesmo assim, festa do santo padroeiro não deixou de ser assinalada.

E fez-se a festa possível em Braga e Vila do Conde, outros dois epicentros da romaria são-joanina. Mesmo em tempo de pandemia, a data foi assinalada.

Braga

"Em casa não ficávamos bem"

A figura do S. João no centro do chafariz da Avenida Central, em Braga, os balões coloridos a agitarem-se com o vento, alguns martelos à espera de clientes, as rulotes com as bifanas, os pães com chouriço e as farturas, junto ao parque da Ponte, eram ontem à noite os únicos símbolos de uma romaria que, neste ano, se fez sem qualquer tipo de animação. Mesmo assim, centenas de pessoas saíram à rua para manter algumas tradições e lembrar as noitadas de outros anos.

"Em casa, não ficávamos bem. Viemos à capela, vimos as figuras bíblicas no rio Este, comemos a bifana e ainda vamos às farturas", descreveu Alice Tavares, junto da amiga Fátima Costa, bracarenses e adeptas da noitada de S. João. Num ano "normal", acrescentou Alice, juntava-se, ainda, o ritual de subir e descer a Avenida da Liberdade, vezes sem conta. Era ali que se costumavam encontrar as barraquinhas com bijutarias, roupas e um sem-fim de brinquedos. "Se houvesse festa, subíamos e descíamos a avenida umas quatro ou cinco vezes", disse a bracarense.

Ao lado, numa das mesas de piquenique do parque da Ponte, a família Magalhães também dava umas dentadas nas bifanas, antes de seguir para o concerto solidário dos Amor Electro, no Altice Forum Braga, o único espetáculo presencial que foi agendado pela associação de festas. O resto do programa fez-se através das redes sociais.

Os foliões aplaudem a decisão e até os comerciantes agradecem a oportunidade de ir para a rua. "Se não permitissem vender farturas, estaríamos sem trabalhar. E está a correr bem. As pessoas dizem que só falta o cheiro da sardinha", frisou Ana Rodrigues, das farturas Adelina.

vila do conde

"É um S. João muito triste"

20:30. Noite de S. João. Por esta hora, há um ano, José Silva tinha a casa cheia, filas à porta, dezenas de sardinhas no assador. Neste ano, no restaurante da sede do Rancho da Praça há "meia dúzia de famílias". À beira-rio, as esplanadas encheram-se de quem não dispensou "uma bela sardinha", mas, restaurantes à parte, Vila do Conde estava deserta. Só a PSP nas ruas, uma ou outra varanda enfeitada e o cheiro a sardinha assada lembravam que ontem era a grande noite do padroeiro.

"É um S. João muito triste!", atira Conceição Soutinho, a "São Maró", como é mais conhecida. É da Praça "de alma e coração". "Nem sei o que parece as ruas vazias e não ir ver os ranchos à avenida!". Não pôde reunir amigos e família na habitual festa à porta de casa, com o assador a trabalhar até de madrugada e um pezinho de dança à mistura. Juntou filha, nora e netos e foi, "pelo menos, comer sardinhas" à "sua" Praça.

"No ano passado, a esta hora, tinha 200 pessoas à espera de mesa e a rua estava tão cheia que já quase não se podia andar", conta Paulo Rodrigues, que à beira-rio tem o restaurante "Alfândega", virado para a nau quinhentista, num dos "palcos privilegiados" da festa. A "casa" até encheu e a sardinha era "gordinha e boa", mas faltou "a folia e a invasão de outros anos".

No "Patarata", Carla Vale faz contas à vida: a sardinha saiu a 10 euros o quilo. Comprou 60 quilos e, pelo andar da carruagem, não ia vendê-la toda. "Vieram alguns clientes habituais e mais nada. É um ano para esquecer", remata, resignada.

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