Braga

Duas estátuas, quatro caras, duas cidades

Duas estátuas, quatro caras, duas cidades

Guimarães e Braga têm esculturas de estrutura idêntica, mas de pressupostos históricos diferentes.

O largo da oliveira, no Centro Histórico de Guimarães, é vigiado a todas as horas por uma estátua com duas caras. Chamam-lhe "o Guimarães", como aparece na maioria das referências históricas, e tem duas caras. Este facto é muitas vezes usado para aludir aos vimaranenses como gente de "duas caras", ou seja, desonestos. Daí que esta "acusação" seja desmistificada por vários historiadores locais, que se debruçaram sobre o Guimarães.

Barroso da Fonte, jornalista e historiador, escreve, no livro "Guimarães e as duas caras", que esta estátua representa as duas frentes de batalha em Ceuta, em 1415: uma para os vimaranenses e outra para o povo de Barcelos. Segundo esta versão, "os vimaranenses teriam cumprido a sua missão e, devido à falta de coragem do povo de Barcelos, teriam ainda dado apoio na "cara" que lhes dizia respeito", aponta o documento.

Já o professor de história e presidente da Sociedade Martins Sarmento, Amaro das Neves, salienta a árvore da oliveira a dominar um leão, imagem que figura no escudo da estátua. A oliveira representa Guimarães e o leão, que ainda hoje é figura das armas reais espanholas, representa Espanha. Conclui o professor que a estátua representa "a oliveira que venceu o leão". Ou seja, "Guimarães que resiste e que vence Espanha, numa referência à contribuição desta terra para a génese da nacionalidade portuguesa".

Em braga, também há uma estátua com duas caras. Quem subir ao alto do Bom Jesus do Monte, onde outrora estava a torre sineira da antiga igreja, está o São Longuinhos. Montado a cavalo, no escudo do santo, está uma outra cara, mas sem a história das "duas faces de Guimarães". "Ao que tudo indica, não existe qualquer lenda ou facto histórico para as duas caras do São Longuinhos", começa por explicar Rui Ferreira, bracarólogo - denominação para um bracarense que estuda a história de Braga - que está a tirar o mestrado em Património na Universidade do Minho. Segundo o historiador, tudo não passa de um elemento decorativo. "É apenas um aspeto iconográfico, um elemento que enriquece o período histórico da obra", conclui Rui Ferreira, recordando que a estátua remonta ao período neo-clássico. "Remonta a 1819, bem depois da estátua de Guimarães. Não há qualquer ligação ou história de imitação com a obra vimaranense", refere. Aliás, a única lenda que há em torno da estátua está ligada à crença do casamento. Pela festa de São João, algumas raparigas namoradeiras andam à volta do São Longuinhos, proferindo orações, com o objetivo de apressar o seu casamento. A estátua é da autoria de Pedro José Luís e foi oferecida ao santuário por Luís Castro de Couto, um senhor de Pico de Regalados, Vila Verde.

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