Acidente na A1

Padre de Figueiredo diz que se perdeu a sacerdotisa da paróquia

Rui Dias

Na igreja, onde Emília Castro era catequista e coordenava o coro, a tristeza estava em todos os rostos

Foto Paulo Jorge Magalhães/global Imagens

Duas das três vítimas do acidente com um autocarro na A1, ocorrido este sábado na Mealhada, eram de aldeia de Guimarães, que está de luto. Motorista vivia em Airão.

Um dia depois da tragédia, a pequena igreja da freguesia de Figueiredo, em Guimarães, de onde eram duas das três vítimas mortais do acidente, na A1, na Mealhada, com um autocarro que se dirigia para o santuário de Fátima, encheu-se para a missa. A paróquia prepara-se para cinco comunhões que acontecem no próximo domingo, mas sem alegria. O luto marcou-lhes a vida. A cinco quilómetros da aldeia, em Airão, terra do motorista António Araújo, 63 anos, que também morreu no acidente, o silêncio imperava.

Emília Castro, de 53 anos, uma das vítimas mortais, era catequista e uma das responsáveis pela organização das atividades da paróquia. Os elementos do Grupo Coral compareceram na liturgia, visivelmente abalados. O padre José Castro reserva-lhes um momento no final da celebração. "Vai ser difícil, mas temos de continuar", disse.

Confessa que não encontrou palavras para se dirigir aos paroquianos. "Praticamente não fiz homilia. Isto é uma terra tão pequena, sentimos todos uma perda grande. Perdemos a sacerdotisa da nossa paróquia", afirmou, referindo-se a Emília. Aponta com o olhar para a encosta em frente e indica que ali morava Alberto Soares, de 77 anos, outro passageiro morto. "Sou daqui, fui criado com os mais velhos. Fui professor de Português, aos mais novos dei-lhes aulas. São da minha família", acrescenta, garantindo que haverá as comunhões: "Devia ser um momento de festa, depois de nos últimos anos não termos podido realizar este sacramento, devido à pandemia.

Ano especial

O presidente da União das Freguesias de Leitões, Oleiros e Figueiredo, João Alves, seguia no segundo autocarro. O passeio era uma organização habitual da Junta. "Este ano era especial, porque retomávamos uma coisa de que as pessoas tanto gostam", disse, com tristeza. Acabado de chegar de uma visita a casa das pessoas enlutadas, o autarca contou momentos dolorosos, em que segurou a mão de uma das pessoas encarceradas, enquanto aguardavam o socorro.

"Há agora duas pessoas internadas que inspiram mais cuidados. Uma senhora que sofreu um derrame cerebral, e que tem um prognóstico muito reservado, e outra que foi operada a uma anca. Relativamente às outras que ficaram no hospital, espera-se que tenham alta nas próximas horas", esclarece. De acordo com o autarca, aguarda-se que o Instituto de Medicina Legal de Aveiro termine as perícias para marcar os funerais.

O grupo de 140 peregrinos ia dividido em três autocarros, mas no acidentado a maioria era de Figueiredo. Terá sido o rebentamento de um pneu a origem do sinistro. O Município de Guimarães montou uma equipa para dar apoio às vítimas, sobretudo psicológico.

Do acidente resultaram, ainda, 33 feridos. Para o local foram enviados 130 operacionais, apoiados por 57 veículos. A Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica estranha que não tenha sido utilizada a Viatura de Intervenção em Catástrofe, que permitiria ter um Posto Médico Avançado, macas de catástrofe e material de Suporte Avançado de Vida.

Investigação

O Núcleo de Investigação de Crimes em Acidentes de Viação da GNR de Aveiro está a investigar as circunstâncias do despiste, recolhendo diversas informações, nomeadamente se a viatura tinha seguro. Na base de dados da Autoridade de Supervisão de Seguros não aparece registo, mas é salvaguardada a possibilidade de problemas de comunicação das seguradoras. As autoridades aguardam o resultado da autópsia ao condutor, vão fazer uma perícia ao autocarro e inquirir os passageiros. Anteontem, um drone da GNR sobrevoou o local para recolher imagens.

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