Guimarães

Sinais de uma crise que teima em não deixar o Vale do Ave

Sinais de uma crise que teima em não deixar o Vale do Ave

Crise, diz muita gente. O desemprego diminuiu, mas ainda está acima da média nacional; há famílias falidas; mas também novos centros comerciais e um parque automóvel de luxo. Em Guimarães, a Câmara diz que é hora de investir no social.

Ela aí está, de novo, a crise do Vale do Ave. Pelo menos no léxico de muita gente. Há sinais que a confirmam - desemprego acima da média nacional (apesar da tímida descida do primeiro trimestre do ano), fecho de fábricas, aumento do trabalho precário e da emigração e famílias falidas; mas há outros que a contrariam - grandes centros comerciais em construção, casas e carros topo de gama que se vendem bem. Há um ano, o concelho de Guimarães tinha cerca de 12 mil desempregados inscritos no Centro de Emprego. Agora são pouco mais de nove mil. "O desemprego baixou, mas os sinais de preocupação persistem", diz o presidente da Câmara Municipal de Guimarães, António Magalhães. Para os sindicatos, há sinais de aguda preocupação. "Temos indicações de que os próximos meses vão ficar marcados por despedimentos em grandes empresas têxteis devido a deslocação dos sectores produtivos para países como o Vietname e o Bangladesh. E já não se trata apenas de dispensar trabalhadores indiferenciados, mas sim quadros intermédios", afirma Adão Mendes. É o desemprego que empurra grande parte das famílias para o Banco Social da cooperativa municipal Fraterna. "É o que me vale, caso contrário não conseguia sobreviver", confessa Maria José, 36 anos, desempregada, tal como o marido, mãe de cinco filhos, um deles com artrite crónica juvenil e confinado a uma cadeira de rodas. Esta família é uma das 300 do concelho que recebem cabazes do Banco Social. Um número que tem vindo a aumentar: há quatro anos eram 40 famílias. Os pedidos de acesso aos cabazes alimentares chegam aos serviços da cooperativa através de sinalizações das paróquias, juntas de freguesia, Segurança Social ou da própria Câmara. Uma outra Maria José, da Fraterna, que coordena a entrega dos cabazes, diz que se sente um "ambiente de dificuldade" nas casas por onda passa a distribuição. A crise de que se fala afecta a grande massa de desempregados e trabalhadores sem qualificações - o perfil do desempregado não deixa dúvidas: mais de 45 anos, pouco mais que quatro anos de escolaridade - e os idosos, remetidos, na maioria, à solidão das casas e das terras, sem conhecimento de programas sociais de apoio. No caso de Guimarães, a maioria não está a beneficiar do Complemento Solidário para Idosos por desconhecimento deste programa governamental, o que levou a cooperativa Fraterna a desenvolver uma campanha para "detectar" candidatos. Mas já não são só as famílias atingidas pelo desemprego ou pela doença. Há cada vez mais trabalhadores que não conseguem suportar as despesas mensais com o dinheiro do salário, como refere Capela Dias, economista, eleito da CDU na Assembleia Municipal. E famílias da classe média com dificuldades na manutenção de "um certo estatuto social", sublinha o presidente da Câmara vimaranense. António Magalhães argumenta que, por isso, as Juntas de Freguesia devem orientar os investimentos para resolução dos problemas sociais das respectivas terras. Ou seja, chega de obras emblemáticas, materiais; é hora de olhar para projectos sociais, mais ainda num período turbulento marcado por aumentos dos combustíveis e de alimentos que vai agravar ainda mais a situação.