Reportagem

Escravizado 25 anos pela família aprende a ler

Escravizado 25 anos pela família aprende a ler

Escravo de Coucieiro, Vila Verde, vive com família de acolhimento e já revela progressos assinaláveis. Vizinhos, comedidos nos juízos, apontam situações de maus-tratos praticados ao longo de 25 anos de cativeiro.

Os muros altos que cortam a visão para o interior da Quinta de Mascate, em Coucieiro, Vila Verde, são os mesmos que, durante cerca de 25 anos, esconderam todas as atrocidades associadas à escravidão que ali foram praticadas a Rui Manuel da Mota Machado. Cinco anos após ter sido entregue a uma família de acolhimento, Rui já consegue esboçar um sorriso, mas logo lhe saltam as lágrimas, quando se refere o nome da quinta, onde viveu privado de liberdade e dos direitos fundamentais. Eram os próprio primos (Casimiro Silva e Rosalina Silva e os filhos destes, José Pedro e Maria de Fátima) que o mantinham em cativeiro e que agora são acusados de um crime de ofensa à integridade física grave e de um crime de escravidão. Ao processo estão arroladas 43 testemunhas.

Contactado pelo JN, Casimiro Silva disse apenas ser acusado "por inimigos. É tudo falso. Tive comigo um rapaz que tratei como um filho. As feridas já ele as trazia. Ele era muito rebelde", disse.

"Batiam-me muito. Às vezes, estava a deitar o estrume no campo e batiam-me. Tinha de trabalhar muito. Lavar as vacarias, roçar silvas dos valados, cuidar do gado e carregar. Agora, tudo mudou. Ando na escola e estou a aprender a escrever o meu nome. A professora diz que tenho uma letra bonita". Neste discurso nem sempre linear, Rui Manuel começou por franzir o semblante e foi rasgando um sorriso à medida que deixava para trás as piores recordações. Mesmo os vizinhos mais próximos revelam alguns pruridos em abordar o tema, apesar de deixarem escapar frases que revelam conhecimento do caso. As paredes da quinta são altas e os ecos que saltam os muros são abafados pela comezinha atitude minhota que leva cada um a olhar pela sua vida. Mesmo das tentativas de denúncia não restam registos palpáveis.

Agora, Rui Manuel acompanha a família de acolhimento em todas as saídas e até conheceu o mar. Os horizontes abrem-se, aos 35 anos, mas há memórias que não se apagam. "Andava sempre de galochas ou descalço, fosse Inverno ou Verão. Tomava banho e vestia a mesma roupa. Dormia no quarto da loja (adega) e não era bem numa cama. Fazia as necessidades num balde", recorda, a custo, Rui Manuel. As refeições eram outro lado negro na vida do Rui. E se a vizinha Maria do Céu entende que o Rui até comia muito, apontando para um balde, para dar conta da quantidade, já em termos qualitativos podem levantar-se dúvidas. "Davam batatas e feijão miúdo", diz Rui, que sofre de uma gastrite crónica à qual está a ser tratado, tal como uma hérnia que aguarda marcação cirúrgica. Já foi tratado a um problema num joelho. São marcas, como aquelas que ainda recortam o corpo, que Rui Manuel carrega na alma. A 25 de Novembro de 2004, José Soares transportou Rui à avaliação médica. "Mantinha uma posição curvada, vinha cheio de feridas. Um dermatologista até chamou os colegas para verem o estado em que se encontrava", lembra este homem de Travassós.

Foi difícil tirar Rui Manuel daquele "inferno". "O comandante da GNR foi ter comigo e foi dar uma volta até ao fundo da quinta. Até apanhou um choque na cerca do gado. Disse-me para vir e eu vim. Tinha as calças todas rotas e sujas de lavar a vacaria. Tive de mudar de roupa duas vezes e mesmo assim estava sujo", lembra Rui Manuel. De resto, a família de acolhimento guarda o cinto que Rui usava na altura. Desde que foi integrado nesta família, Rui nunca mais contactou com a família da Quinta de Mascate. "Cruzámo-nos na Festa das Colheitas e o Rui começou logo a tremer, mas não aconteceu nada", diz José Soares.

Rui frequentou a escola durante um ano. Foi retirado e, desde aí, nunca mais apanhou vacinas. Quase 30 anos depois, Rui tenta retomar o curso da vida. Voltou à escola e, segundo José Soares, "está muito diferente. Já fala melhor e sabe usar os talheres", diz, não sustendo a emoção de quem acompanha o progresso. Da família onde esteve Rui Manuel nem uma palavra, tal como a grande parte dos vizinhos.

"O rapaz estava sempre fechado na quinta. Saía quando eles não estavam ou à noite e pedia-me pão e banana. Uma vez, vi o filho do patrão a correr com um pau atrás dele. Ouvi berros, mas também andavam sempre a berrar ao rapaz", diz Maria de Lurdes que justifica o porquê de não ter avançado com uma denúncia: "Estamos de relações cortadas há anos, por causa das fossas deles. Se denunciássemos ainda iam dizer que era por vingança", justifica, lembrando uma vez que esteve tentada a fazê-lo, quando Rui "chegou aqui com a cabeça rachada. Deram-lhe com um rodo". Por isso, sentencia: "Pague quem deva!"

Maria de Lurdes lembra que Rui Manuel tem um tio em Lisboa e uma tia em Roriz "que sabiam da situação e nada fizeram". Já D. Sameiro pede simplesmente a Deus que "ajude quem o tirou dali para fora".

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