Bragança

Novas estradas roubam clientes e deixam fruta nas árvores para os pássaros

Novas estradas roubam clientes e deixam fruta nas árvores para os pássaros

As novas estradas transmontanas roubaram os clientes a pequenos produtores que durante anos viveram do negócio da beira da estrada e que agora temem ter de deixar fruta e outros produtos a apodrecer nas árvores e na terra.

A estrada nacional 102, que atravessa o distrito de Bragança, era o ponto de venda direta aos automobilistas que paravam para se abastecer junto a caixas repletas de produtos agrícolas.

Desde Bornes, em Macedo de Cavaleiros, até ao fértil Vale da Vilariça, há de tudo, a começar pela cereja que abre a época, no mês de maio, ao figo, pêssego, melão, melancia, favas, pêra ou frutos secos.

O que falta agora é quem compre, porque o IP2 desviou o trânsito e os clientes e são poucos os que insistem na sinuosa 102 em vez da nova via rápida.

Estas são as primeiras vendas depois da abertura da nova estrada e Fernanda Gomes já sentiu os efeitos. "Nem uma alma", nem um quilo de cereja conseguiu vender à porta de casa, em Bornes, na berma da nacional 102.

Quando vê aproximar um carro ainda pergunta à vizinha Joaquina Rodrigues "a quanto se deve vender?", mas nem tempo tem para fazer o preço do quilo e já é tomada pela desilusão. É que agora só passa ali quem é obrigado e os que passam também eles têm cereja e outros produtos que não conseguem vender.

Um conhecido para o automóvel do outro lado da estrada e manda em jeito de provocação: "a quanto é que está a cereja?". Ambos sabem que raramente vão voltar a ouvir a pergunta dos automobilistas.

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A nova estrada é um dilema para estas gentes. Era aguardada há décadas, junto com outras, como o IC5, que também está pronto, e que aproximaram estas gentes de tudo. Para levar a mãe ao médico, Joaquina demora agora "cinco minutinhos". Agrada-lhe também poder "andar mais à vontade", sem o movimento e a velocidade do trânsito que ainda há meses atravessava a aldeia.

Já para Fernanda ficou "tudo mais triste".

"Esta é uma aldeia muito rica: temos azeitona, castanha, cereja, só que não há gente", observam, nem para comprar, nem para trabalhar porque "está tudo velho".

A maior parte destes vendedores são reformados que conseguiam um rendimento suplementar.

"Aqui vendia-se muita coisa", garantiu à Lusa Manuela Herdeira, que chegou a ter clientes à espera enquanto colhia mais fruta nos cerdeiros e agora não vende nada e não compreende o apelo nacional ao regresso à agricultura.

"Como é que se pode regressar à agricultura se ninguém procura nada", questiona-se esta mulher, que até fica "doente" de pensar que vai ter de deixar as cerejas nas árvores para os pássaros.

É este o futuro que vaticinam para a cereja e outros produtos que vão acabar por cair de podres das árvores ou apodrecer na terra, numa altura em que a situação do país faz lembrar os tempos difíceis de necessidade, que Manuela e outras companheiras de conversa, como Maria Herdeira e Valentina Coropos, passaram.

"Quando éramos pequenas, queríamos comê-las (cerejas) e não tínhamos. A gente passava por um cerdeiro e até cegava".

Agora dão e sobra de tudo e estas mulheres perguntam porque é que alguém não cria "para aí uma fábrica que recolha isto tudo".

A nova estrada volta à conversa para se queixaram dos terrenos que perderam e dos preços que lhes pagaram.

Manuela anima-se com a surpresa do dia: o único cliente da manhã regressou. Manuel Novo, de Torre de Moncorvo, foi ver os filhos a Bragança e levou-lhes cerejas. No regresso, voltou a parar em Bornes para comprar mais.

É cliente habitual deste comércio e mesmo com os elogios à nova estrada não deixou de fazer o desvio inverso da maioria. Manuel reconhece que a nova via prejudica este comércio e outros locais, como os restaurantes e cafés.

Manuela despachou uma caixa de cereja e ganhou os primeiros dez euros da tarde.

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