Mirandela

Pais de rapaz que morreu afogado no Tua revoltados com demora da autópsia

Pais de rapaz que morreu afogado no Tua revoltados com demora da autópsia

Corpo foi resgatado há 72 horas e aguarda disponibilidade de um médico da especialidade de medicina legal que só existe no Porto. Situação é recorrente, há um ano, após aposentação do anterior médico.

"É inadmissível que ninguém nos saiba dizer quando o nosso filho vai poder ser autopsiado. É revoltante". São as únicas palavras que o pai de Rodrigo Correia consegue dizer para exprimir o enorme sentimento de revolta pela longa espera para a realização da autópsia ao corpo do filho de 14 anos que morreu, na passada quarta-feira, no rio Tua, quando nadava com outros colegas na praia fluvial da cidade, que ainda não tem vigilância. O corpo foi encontrado já ao anoitecer, pelas 20.40 horas, mas até agora continua por autopsiar.

"É vergonhoso o que nos estão a fazer", diz a mãe de Rodrigo. "Só depois de muita insistência é que me disseram que talvez na segunda-feira, de manhã, possa ser feita a autópsia", revela Lília Miriam. "Já não basta a dor enorme destes pais pela perda do filho nestas circunstâncias e ainda têm de levar com esta longa espera para poder fazer o funeral. Não se compreende. Se não têm condições que as criem", remata Carlos Colmeais, amigo dos pais.

Ao que o JN conseguiu apurar, esta situação já não é de agora e tem acontecido com muita frequência, desde que o único médico especialista em medicina legal a operar no concelho de Mirandela se reformou, há cerca de um ano.

Agora, as famílias das pessoas que morrem em Mirandela estão dependentes da disponibilidade dos médicos do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF) do Porto.

Apesar de haver técnicos auxiliares de perícias tanatológicas, é obrigatório que a liderar as autópsias esteja um médico com essa formação específica e este vazio só pode ser resolvido pelo próprio INMLCF, com a alocação de um profissional, ou então com a abertura de um concurso para preenchimento desta vaga. Não foi possível obter qualquer esclarecimento junto do INMLCF.

O que tem acontecido, em várias ocasiões, é que não existe disponibilidade imediata dos médicos do Instituto do Porto e a situação fica incontrolável.

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Neste caso específico, como a morte aconteceu na quarta-feira, véspera de feriado (10 de junho), e só na sexta-feira é que o tribunal terá tratado de toda a burocracia documental, só no início da semana é que será possível realizar a autópsia ao cadáver do rapaz de 14 anos e mais quatro que aguardam o mesmo procedimento.

Situação recorrente nos últimos 12 meses

Um agente funerário, que não se quis identificar, confirma o caos que tem sido a realização de autópsias no último ano. "Por trás de cada autópsia há inevitavelmente uma espera de inquietação e angústia que se deveria minimizar sem prejuízo óbvio do cumprimento da lei, mas a disponibilidade e celeridade na realização da autópsia, que era célere, é agora notoriamente mais burocrática e gerida a partir do Porto o que deixa transparecer também que neste caso particular a população do interior sofre aqui de alguma distinção pejorativa", lamenta.

Este agente funerário tem testemunhado vários casos idênticos de corpos que aguardam a realização de autópsias. "É triste, porque nós mediamos as expetativas, a dor e sofrimento dos familiares antes da realização do funeral e temo-nos apercebido de um desconforto crescente das famílias que passam infelizmente por estas situações de mortes traumáticas. Sentimo-nos totalmente impotentes", conta.

Este agente funerário denuncia ainda outras situações que têm levado a um acentuar das dificuldades na prestação deste serviço. "Existe um problema estrutural por resolver que é a falta de espaço e dotar esta estrutura de mais câmaras de frio, pois apenas tem na sua base 2 lugares refrigerados", refere.

A morgue de Mirandela é um espaço diminuto, cerca de 2,70 x 2,70m, onde "por vezes permaneciam 4 cadáveres ou mais sendo necessário a retirada de alguns corpos para o exterior de forma a permitir aos agentes funerários realizarem os seus trabalhos em segurança", revela.

No entanto, depois do aparecimento da pandemia da covid-19 foi minimizado o problema com a colocação de um contentor amovível refrigerado.

Ainda assim, este agente funerário entende que nem o Instituto de Medicina Legal tem as condições físicas necessárias básicas nem muito menos a morgue do hospital as tem. "Quando ambos partilham o mesmo espaço e acontecem coincidências desta natureza, como 5 corpos a aguardar realização de autópsia e os restantes cadáveres inesperados por morte natural, todos ficamos preocupados", diz.

Sem se conter na indignação, relata ainda outra situação que dificulta o trabalho das agências funerárias. "Há algum tempo, por ordens superiores, foi vedado o acesso ao WC da morgue privando todas as agências funerárias do acesso a água, fundamental para a prática de tanatoestética assim como da lavagem de mãos e outros serviços básicos dos seres humanos que também nós, agentes funerários, necessitamos", conclui.

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