Reportagem

Idosos fechados em casa em Trás-os-Montes temem pelo futuro de filhos e netos

Idosos fechados em casa em Trás-os-Montes temem pelo futuro de filhos e netos

Se até há duas ou três semanas as aldeias transmontanas estavam despovoadas, agora parecem desertas, como se o tempo tivesse parado num instante.

A maioria da população é idosa, está trancada em casa após as recomendações e apelos para os cidadãos não saírem, para se protegerem de um eventual contágio pelo novo coronavírus. Fecharam-se mesmo. Os poucos que se avistam ou estão à janela ou na varanda "a tentar respirar um pouco de ar puro", conta Deolinda Graça, 91 anos, residente numa aldeia do concelho de Torre de Moncorvo que há quase um mês não sai de casa "para ver o que dá isto". "Para mim não dará muito que sou velha, mas temo pelo mais novos", explica.

A estranheza causada por toda esta situação que já não lhe entra casa dentro só pela televisão ainda não foi interiorizada, mas compreende que se vive uma situação de perigo. É estranho os funcionários do município andarem a desinfetar as ruas, as máscaras de proteção e luvas que lhe foram oferecidas por um benemérito que fez um donativo à aldeia, que lhe dizem para usar se sair de casa, os filhos e netos que estão em suas casas sem trabalhar, confinados em prédios nas cidades. "Não vem ninguém para a Páscoa, não podem. Será a Páscoa mais triste de sempre", prevê.

Deolinda vê agora menos televisão. "Só se fala de gente a morrer e não há cura. Nunca visto. Eu que já vi tanta coisa, já passei tempos tão difíceis, como isto nunca vi. O meu coração já não está para tanta tristeza", confessa, lembrando que estaria para começar os preparativos para fazer os folares tradicionais. "Ninguém anda muito animado para festas", lamenta.

Nas aldeias de Trás-os-Montes a vida também continua. Os mais novos vão levando a vida do campo, que é tempo de plantar as hortas. "Não se sabe o que vem por aí. O melhor é acautelar e plantar umas batatas, uns feijões e uma hortaliça", explica Manuel Lopes.

Na zona do Parque Natural de Montesinho até parece que os habitantes se eclipsaram e que deixaram a vida suspensa por uns tempos. Ruas e praças sem ninguém. Ao longe avista-se uma ou outra pessoa a trabalhar no campo, sempre sós, outros a espreitar em janelas e varandas para tentar matar o tempo. Nas aldeias raianas de Rabal, França, Montesinho, Portelo e Aveleda, Rio de Onor, praticamente não se avista vivalma.

"Está tudo metido em casa, que remédio. Como vê não há ninguém na rua", explicou uma idosa residente na aldeia de Montesinho, uma das localidades mais isoladas da zona, que andava pelo quintal a tentar distrair-se. "E isto está bom para andar na rua ", vai dizendo sem parar o seu passeio pelo quintal. Na casa ao lado, outra mulher, bastante velha, tenta escutar a conversa. Limita-se a olhar tristemente

Em Montesinho, Maria Teresa Rodrigues, era a única que estava na rua, junto a sua casa e com vontade de "desabafar" com alguém. Sem se aproximar conta que toda esta situação a entristece. "Já estou deprimida. Tenho o meu marido doente, acamado, e ainda tenho problemas com um vizinho por causa de um cão. Com tanto problema no mundo há estes problemas", referiu. Afinal, a vida continua mesmo, e as minudências não se acabaram por causa da doença global.

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