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Crise no maior centro de tecelagem manual europeu

Crise no maior centro de tecelagem manual europeu

Número de teares activos, em Almalaguês, justifica o título. Mas as vendas estão fracas.

Em Almalaguês, Coimbra, já não se constrói um tear por cada menina que nasce. Muito mudou, incluindo as aspirações de mulheres e jovens. O negócio anda fraco. Mas este ainda é considerado o maior centro de tecelagem manual… da Europa.

O presidente da Junta de Freguesia, Victor Costa, garante que o título é válido. A justificação está no levantamento do número de teares existentes, feito em 2003, com a antiga delegada regional da Cultura do Centro, Ana Pires. Foram detectados 95 activos, só no lugar de Almalaguês. A responsável - que prefere ver-se como "entusiasta esclarecida", mais do que investigadora - estima que haja uns 140, por estes dias, em toda a freguesia.

"Almalaguês é, por ventura, o maior centro de tecelagem manual da Europa. Como não conheço tudo, não posso jurar a pés juntos. Mas dificilmente se encontrará um lugar com um largo número de tecedeiras, ainda a tecer, tendo por trás uma tradição de séculos", explica a actual técnica da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e directora da revista "Mãos", dedicada às artes e aos ofícios.

Antes do 25 de Abril, a tecelagem impunha-se às raparigas, numa terra isolada, a escassos 12 quilómetros de Coimbra. "Eram logo levadas para o tear, porque era a única forma de serem rentáveis numa casa que subsistia da agricultura", conta Victor Costa. A Revolução abriu portas para outros mundos. Muitas mulheres e jovens aproveitaram.

"Isto não dá para os jovens pagarem casas e carros", atira Rosalina Marques da Silva, tecedeira de 65 anos. Sem ironias. "Nenhuma das minhas filhas seguiu a profissão, porque não dá para viver. Já deu, em tempos". As prateleiras estão cheias de material ensacado. "Dinheiro empatado", traduz.

Júlia Fonseca tem 73 anos, mas a tecelagem "é uma doença" e nem pensa em reformar-se. As suas palavras são o eco das de Rosalina. "A minha filha passa todas as horas livres no tear, mas tem uma casa para pagar e dois filhos para criar. No ano passado, o negócio estava tão fraco que foi trabalhar para um lar. É o que tem acontecido com as mais novas".

A colcha de Almalaguês, tida como a peça mais nobre, leva semanas a fazer, custa perto de 500 euros e quase não tem saída, asseguram as tecedeiras. Algumas, como Cristina Fachada, usam a criatividade para enganar as dificuldades (ver página ao lado).

Ana Pires confirma que, aos motivos originais, muito "naïf", se foram juntando outros, exteriores. Mas não vê nisso um drama: "A tradição não é imutável. As tecedeiras absorvem muitas influências, mas a sua base é tão forte que [as peças] continuam a ser de Almalaguês, o mais possível".

"A certificação é absolutamente necessária, mas só é possível com este trabalho de base". Victor Costa refere-se ao livro "Tecelagem de Almalaguês - Manual Técnico", de Ana Pires e Guida Fonseca, a editar, brevemente, pelo Centro de Formação Profissional do Artesanato (CEARTE).

"Permitiria valorizar o trabalho da tecedeira de Almalaguês, vendê-lo pelo preço justo", defende o autarca, aludindo às imitações baratas que abundam. Júlia, que pratica os preços de há 20 anos, não podia estar mais de acordo.

Mas Victor Costa acredita na sobrevivência da tecelagem manual que faz correr o nome da terra. E acena com a associação Herança do Passado, a funcionar, há um ano, na antiga escola primária do lugar de Anaguéis. O objectivo é conservar o "património genético" de Almalaguês, para usar a expressão do presidente. Em especial, a tecelagem.

À frente está Maria Emília Pereira, professora do primeiro ciclo em Buarcos, na Figueira da Foz. A missão entusiasma-a ao ponto de, todos os dias, viajar entre os dois pontos. Tudo começou de forma simples, diz ela: "Não víamos jovens a tecer e achámos que talvez aderissem se existisse este espaço comunitário". E sangue novo, há? "Ainda não conseguimos nenhum jovem. Um dia destes, eles vêm!", remata, com uma gargalhada.

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