Deficiência

"Não foi trágico. Dentro da desgraça tivemos muita sorte". Instituição fecha-se para travar o vírus

"Não foi trágico. Dentro da desgraça tivemos muita sorte". Instituição fecha-se para travar o vírus

Instituição de Coimbra para pessoas com deficiência combateu a Covid-19 de portas fechadas. Há mais de um mês que não há visitas.

Numa bicicleta estática, Ricardo percorre quilómetros imaginários. A paisagem não é verdejante nem infinita. Termina num par de muros cor de tijolo emoldurados por uma janela. Há um mês que Ricardo não recebe visitas. Ao ver caras novas, levanta os braços e, como se estivesse a cortar a meta, grita: "Finalmente!"

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Estava quebrada a monotonia na Cavalo Azul, instituição particular de solidariedade social, na Várzea, Coimbra, que dá apoio a 30 pessoas portadoras de deficiência. Foi atingida pela Covid-19, mas fechou-se a sete chaves e travou a propagação do vírus. Apenas três utentes deram positivo. Dos 26 funcionários, sete caíram. Mas já recuperaram. "Não foi trágico. Dentro da desgraça tivemos muita sorte porque costumam passar aqui cerca de 50 pessoas", admite, com orgulho, Luís Costa, diretor técnico.

A vida segue com normalidade, mas a um ritmo lento e repetitivo. Além dos 12 utentes do lar, a instituição recebe, todos os dias, 18 pessoas no centro de atividades ocupacionais. Agora, só lá estão nove. Dois, Tiago e Zulmira, isolados à espera que o teste à Covid-19 os liberte.

Na sala de trabalhos manuais, preparam-se as decorações para o 25 de Abril. Ao som de versos melancólicos de uma música brasileira, Mariana Inês, de 38 anos, escrevinha umas frases.

A maior chatice é não ter os amigos, diz. Não sabe por que deixaram de aparecer. A Covid-19 passa-lhe ao lado. Gira a cadeira de rodas e volta para a mesa onde Carlos pinta a bandeira nacional, enquanto Ricardo ouve Quim Barreiros.

Na entrada, Lara e Emanuel, gémeos, e Olga sentam-se com vários metros de distância. Sabem que não podem estar juntos. Os três com os olhos enterrados nos telemóveis. Lá fora chove. "Isto é uma seca. Nem no carrinho rolamentos podemos andar", diz Emanuel.

A hora de comer é a mais solitária. Cada um no seu canto. Sozinhos. Antes disso, todos esfregam bem as mãos. Carlos, que tem Síndrome de Down, seguiu tão à risca as regras de higiene que foi preciso começar a hidratar-lhe as mãos.

A associação fez o possível para manter os utentes nas instalações, explica Ana Paula Moreira, presidente da Cavalo Azul. "Mas não foi fácil porque alguns não tinham a capacidade de entender as normas de segurança". Também ela tem um filho no lar diagnosticado com adrenoleucodistrofia aos oito anos. Hoje, com 27 anos, Cláudio está em estado vegetativo. "A preocupação foi protegê-los. Não podíamos ter o vírus. Entrou, mas felizmente conseguimos pará-lo", afirma com alguma cautela.

Foi preciso "roubar" a liberdade a uma casa onde não havia horários para visitas. E quem parece sofrer mais são os pais. Maria Prazeres Quintas e Manuel Miranda são pais de Tiago, ou Tiagolas, como é tratado por todos. Um dos três infetados.

"Tem sido horrível. Sobretudo por não saber como é que ele está. Sempre acompanhamos o Tiago em tudo", diz Maria Prazeres. O filho tem Síndrome Smith-Lemli-Opitz, e depende dos pais para tudo. Apesar da angústia, sabem que é o melhor para todos. Também eles são do grupo de risco e, pela idade avançada, não seriam capazes de tomar conta de Tiago sozinhos.

A Cavalo Azul espera, em breve, voltar a abrir portas. Passam minutos depois, Ricardo sai da bicicleta. Agora, só quer ligar à família.

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