Miranda do Corvo

Enfermeiros suspendem tratamentos domiciliários por falta de auxiliares

Enfermeiros suspendem tratamentos domiciliários por falta de auxiliares

Os enfermeiros do Centro de Saúde de Miranda do Corvo (CSMC), no distrito de Coimbra, estão a recusar-se a prestar apoio domiciliário a doentes acamados, por falta de assistentes operacionais para os acompanharem.

Três dos quatro assistentes operacionais do centro de saúde estão de baixa médica, explica fonte do centro de saúde, acrescentando que se trata de funcionários que já estão perto da idade da reforma.

A mesma fonte, que solicita o anonimato, conta que a suspensão dos serviços de enfermagem ao domicílio já dura há duas semanas.

Todavia, e apesar das diversas tentativas do JN, o diretor executivo Agrupamento de Centros de Saúde do Pinhal Interior Norte, Avelino Pedroso, não deu satisfações sobre o problema.

Da parte do Movimento de Utentes do CSMC, Rui Fernandes classifica a situação como "grave", tanto mais que afeta, sobretudo, doentes idosos, que estão acamados ou têm mobilidade reduzida, sustenta. O porta-voz não soube, porém, quantificar o número de visitas domiciliárias que os enfermeiros já deixaram por fazer.

Segundo as informações recolhidas pelo JN, os enfermeiros recusam-se a deslocar-se aos domicílios, argumentando que não podem prescindir do apoio dos assistentes operacionais (que, antigamente, eram conhecidos como auxiliares de ação médica) em tarefas como as de posicionar os doentes para os tratamentos, prestar cuidados de higiene ou remover lixos contaminados (pensos usados, por exemplo).

Na situação atual, aqueles doentes têm, como alternativas, não fazerem os tratamentos ou curativos necessários, deslocarem-se eles próprios ao centro de saúde, ou recorrer a serviços de enfermagem privados ou do setor social.

Movimento aponta falta de higiene

Segundo o representante do Movimento de Utentes, as consequências de apenas estar a trabalhar um assistente operacional também já se fazem sentir no interior do próprio centro de saúde.

"Não existe quem limpe a sala de tratamento, nem despeje o lixo contaminado, colocando em causa a segurança dos próprios utentes", alega Rui Fernandes, sustentando que o pessoal da empresa contratada para limpar o centro de saúde presta serviço diariamente das 12.00 horas às 14.00 e das 16.00 às 20.00, mas não dentro da sala de tratamento.

Sem telefonista há mais de um ano

Sublinhando as alegadas carências de pessoal do CSMC, aquele porta-voz apresenta ainda outros dois casos. Primeiro, diz que o centro de saúde não tem telefonista há mais de um ano.

"Quando o administrativo não consegue atender o telefone, são chamadas que se perdem, consultas que não se marcam, esclarecimentos que não se dão...", protesta Rui Fernandes.

O outro exemplo apontado pelo representante dos utentes prende-se com o facto de o centro de saúde ter um vigilante apenas entre as 18.30 e as 20.00 horas e não desde a abertura, às 08.00 da manhã.

Rui Fernandes considera aquela situação "surreal", sendo certo que está longe de ser um exclusivo do CSMC. Por dificuldades orçamentais do sistema, há outros casos em que os funcionários das empresas de segurança apenas são mobilizados à hora a que terminam o dia de trabalho os funcionários dos centros de saúde a quem são atribuídas funções de vigilância.

O porta-voz dos utentes de Miranda do Corvo afirma ainda que o Movimento de Utentes tem feito "diligências para colmatar as lacunas" referidas. "Mas não temos sido bem-sucedidos", lamenta.

O Centro de Saúde de Miranda do Corvo serve cerca de dez mil utentes, dispondo de uma Unidade de Saúde Familiar, uma Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados e uma Unidade de Cuidados Continuados.