Oliveira do Hospital

Estrangeiros renascem nas cinzas dos incêndios

Estrangeiros renascem nas cinzas dos incêndios

"Mais uma semana e estamos ali a viver". A frase é de Daz Thurgood, enquanto aponta para um anexo, em obras, da sua antiga casa. Foi o que sobrou do lar deste inglês de 51 anos, professor de skate, após o incêndio de 15 de outubro em Avô, Oliveira do Hospital. Como ele, na região há cerca de 50 famílias estrangeiras ainda sem casa. A viver em rulotes, não se sabe ao certo.

Daz mudou-se para Portugal em 2011, com a mulher, Storm, e a filha, Aislinn, hoje com 11 anos. Os problemas de saúde dele e da filha levaram a que procurassem um local com maior qualidade de vida do que Londres. "Juntámos umas poupanças e temos vivido delas", conta Daz. Depois de cinco meses a viver numa caravana, comprou um contentor-casa, onde vive há dois, com o bem-estar da filha como prioridade. "Ela está bem, mas é muito disruptivo não ter rotinas", conta Storm, destacando, no entanto, que a família Thurgood é positiva. "Estamos a começar de novo, devagar", completa.

Daz já construiu uma pista de skate ao pé da casa improvisada, onde começou a dar aulas às crianças e jovens da zona. "Estamos a fazer o melhor possível para continuar com as nossas vidas", diz.

Tempo de burocracias

Os concelhos de Arganil, Oliveira do Hospital, Tábua e Seia têm sido porto de abrigo para várias comunidades estrangeiras, atraídas pelo sossego e pela qualidade de vida. A opção pela vida no campo sofreu um duro revés a 15 de outubro, quando os violentos incêndios desse domingo destruíram as casas que haviam erguido nos terrenos que compraram. Os últimos sete meses e meio têm sido de luta, no terreno e na parte burocrática.

Muitas das edificações estavam em situação irregular, tendo havido, desde abril, abertura por parte da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro para que essas situações sejam resolvidas. Foi feito um primeiro levantamento e a fase atual é de legalização das casas por parte das comunidades para possibilitar um apoio posterior do Estado na reconstrução. Enquanto esperam, os habitantes vão colocando mãos à obra.

"Construí uma casa pequena, com materiais locais e naturais, como pinhas, cortiça e árvores do meu terreno. Queria viver num ambiente saudável, sem produtos tóxicos que tenham uma pegada ambiental grande. Era o meu objetivo e era um sítio bonito, mas ardeu tudo", lamenta Lynn Mylou, arquiteta holandesa de 35 anos, em Portugal há dois. A morar numa tenda em Cerdeira, Arganil, vai reconstruindo, aos poucos, a sua casa de xisto, com a ajuda de alguns amigos da comunidade que vivem nos concelhos vizinhos.

Enquanto espera para ver se terá direito a apoios, Lynn tem feito melhoramentos no terreno, tendo já construído uma cozinha com materiais que sobraram do fogo.

Momentos de otimismo

Apesar da tragédia, os dias destas comunidades são vividos entre sorrisos. Sozinhos ou com a ajuda de amigos, têm reconstruído aos poucos as suas casas, vivendo meses a fio em locais improvisados, como caravanas ou tendas.

É o caso de Michael Gladwell. Construtor civil de Cambridge, conta, bem-disposto, que construir a casa sozinho não é novidade para si. "Estou a viver na caravana com a minha mulher, dois cães e dois gatos", brinca. Pouco depois do incêndio, voltou para Inglaterra, devido a uma cirurgia da mulher, tendo ambos regressado a Oliveira do Hospital a seguir ao Natal. Já construiu um anexo para a caravana, enquanto a casa destruída recomeça, aos poucos, a ganhar forma. "Tratei da documentação quando vim de Inglaterra. Inicialmente, disseram-me que estava tudo certo, depois disseram que havia erros nos documentos", lamenta, assegurando, todavia, não ficar à espera das burocracias para avançar com a casa.

O fogo levou grande parte dos bens de Kevin Cairns, mas não levou a sua boa disposição e o otimismo. Continua a viver na casa que ergueu em Pinheirinho, Oliveira do Hospital, mas agora o espaço é mais pequeno. "Já fiz o telhado e, agora no verão, os meus filhos vêm a Portugal ajudar-me no resto", explica o canalizador inglês há seis anos em Portugal. Kevin vê o incêndio de outubro de 2017 como uma lição. "Não fiquei assustado, é a Natureza. Mostrou que há árvores que resistem melhor ao fogo do que outras. E se calhar são essas as árvores que devem ser plantadas, como pinheiros, em vez de plantarem eucaliptos", avisa.

Quatro numa caravana

Laura Runkehl e Joe Harris estavam em Portugal há seis meses quando o incêndio destruiu a casa no terreno que tinham comprado em Pinheirinho, Oliveira do Hospital. Com duas filhas pequenas (de sete anos e 21 meses), a alemã e o inglês andaram por abrigos emprestados até se fixarem de novo nas suas terras, com uma caravana, em abril.

"Ao início era só uma caravana, mas agora também já temos um toldo", conta, entusiasmada, Laura Runkehl, que chegou a Portugal em abril de 2017, depois de ter estado a viver na Índia. "Na Alemanha, trabalhava em costura, mas já fiz várias coisas", destaca. Atualmente, dedicam-se ao campo em Oliveira do Hospital. Poucos metros acima, estão as ruínas da casa onde viveram e de uma carrinha que uma amiga do casal teve como abrigo antes do fogo.

Admitem a dificuldade de viver os quatro na caravana, mas também confessam um alívio de estar nas suas terras, depois de vários meses ausentes. "É um espaço pequeno, mas é bom voltar a estar aqui", entende Laura.

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