Reportagem

Os bravos que mantêm a linha por amor aos comboios

Diogo Ferreira Nunes (JN/DV)

 foto André Rolo/Global Imagens

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Voluntários recorrem a meios próprios para realizarem reparações na linha ferroviária entre o Pocinho e o Côa, nos tempos livres.

Várias seleções europeias de remo têm escolhido o Pocinho para se prepararem para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Foi instalado o centro de alto rendimento, aproveitando a plenitude do rio Douro naquele local. Numa das margens, desde outubro de 1988 que os comboios da Linha do Douro não passam dali para a fronteira.

A ligação até Barca d'Alva esteve sem cuidados desde 2004, apesar de ainda pertencer ao Estado, através da Infraestruturas de Portugal (IP). Mas um pequeno grupo de apaixonados pelo comboio começou há três anos a fazer o que parecia impossível: recuperar o percurso de nove quilómetros entre o Pocinho e o Côa sem receberem nada em troca. O grupo The Brave Ones, fundado em 2007, é constituído pelos heróis que querem os comboios de volta aos carris.

"Há o cuidado de nós, enquanto sociedade civil, preservarmos um bem que é de todos. Já nos propusemos a oferecer os nossos veículos para qualquer manutenção pesada que queiram fazer. Com o trabalho que estamos a fazer, um veículo de manutenção da IP ficará habilitado a passar por aqui", resume ao JN/Dinheiro Vivo um dos fundadores do grupo, José Costa.

Desde 2018 que os entusiastas prescindem do seu tempo pessoal para recuperar a linha. Realinhar carris, colocar travessas de madeira e cortar árvores foram alguns dos trabalhos realizados. Também houve tempo para retirar pedras gigantes apenas com a ajuda de um macaco hidráulico, sem recorrer a gruas ou outros meios mais pesados.

O quarteto usa unicamente meios próprios para reparar a linha: escadote, luvas, caixa de ferramentas, barras de madeira nas laterais, berbequim, pá, parafusos e anilhas da linha soltos ou aproveitados de outros pontos do troço. Um verdadeiro exemplo de economia circular, segundo a linguagem contemporânea.

Foto: André Rolo/Global Imagens

Estreia em 2021

Foi a primeira vez neste ano que os Brave Ones foram ao Pocinho. Devido ao segundo confinamento, foi impossível cuidarem da linha desde o final do ano passado. Além de retirar parte da vegetação em excesso, foi preciso unir os carris separados através de uma travessa de ferro.

"Não havendo uma junção de carril, a linha tem tendência a sair do sítio e depois há o risco de descarrilamento", assinalam João e Carlos, enquanto furam e martelam para que o trabalho fique direito.

Ao mesmo tempo, Vítor Gomes vai percorrendo a linha a pé e marcando, com um spray sobre os carris, as velocidades máximas permitidas naquele troço. Nas próximas semanas, os Brave Ones vão colocar várias placas junto à via, contribuindo para a segurança dos utilizadores.

Naquela dia, houve almoço-volante junto à Casa da Linha Férrea, antigo poiso de cantoneiros convertida em alojamento local ao ponto quilométrico 173,822. Esta unidade foi concessionada pela IP ao abrigo de um protocolo e a empresa pública fez questão de lá colocar quatro pilaretes para recordar que aquilo é património do Estado.

Uns metros adiante, contudo, ainda existem os postes que foram usados para a comunicação entre estações. A jornada de reparação acabou mais cedo que o previsto por causa da forte chuvada na parte da tarde.

Também o trabalho destes voluntários está prestes a chegar ao fim, depois de quatro anos de tempo livre para fazer o trabalho que deveria estar a cargo do Estado.

Foto: André Rolo/Global Imagens

Grupo de trabalho estuda reabertura até à fronteira

Vai ser criado um grupo de trabalho para definir qual o melhor modelo de reabertura do troço da Linha do Douro entre as estações do Pocinho e Barca d"Alva. A equipa será liderada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte e contará com o apoio do Ministério da Coesão Territorial e da IP. "A ideia é definirmos que modelo queremos para retomar esse troço. O grupo de trabalho vai fazer a análise custo-benefício e vai tentar perceber, com os atores da região, o melhor modelo para essa retoma", referiu a ministra Ana Abrunhosa. As conclusões serão conhecidas até ao final de 2021. O modelo-base deverá passar pela reabertura da linha para o transporte de turistas mas não está excluído o serviço de mercadorias. A reabertura implica um investimento de 43 milhões de euros.

Veículo caseiro com motor de moto-quatro sobre carris

É com o V7 que os quatro bravos do Douro conseguem mover-se pelo troço sem terem de andar a pé. Este veículo foi construído por José Costa (na foto, a segurar um sinal ferroviário) e pesa 425 quilos. Funciona com o motor de uma moto-quatro, de 250 centímetros cúbicos, embora sem marcha atrás.

Foto: André Rolo/Global Imagens

Origens no Norte

No dia em que visitámos o Pocinho, havia quatro homens a representar o grupo, nenhum deles daquela região. José Costa é do Porto, Vítor Gomes mora em São João da Madeira, João Moreira reside em Paredes e Carlos Jesus tem base em Freamunde.

Linha para trilhos

O troço Pocinho-Barca d"Alva é cada vez mais percorrido a pé mesmo por cima dos carris. Durante a reportagem encontrámos o grupo Bichos do Mato, a estrear-se neste percurso.