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Comissão admite que limpeza das faixas faria pouca diferença no incêndio de Pedrogão Grande

Comissão admite que limpeza das faixas faria pouca diferença no incêndio de Pedrogão Grande

Um dos peritos da Comissão Técnica Independente admitiu esta segunda-feira no Tribunal de Leiria que o cumprimento da limpeza das faixas de combustíveis faria pouca diferença no controlo do fogo de Pedrógão Grande, a 17 de junho de 2017.

Joaquim Sande Silva afirmou que a limpeza de dez metros nas faixas de gestão de combustível, "em condições normais, e este fogo não foi normal, foi um fogo de superfície, pode ter algum efeito para travar um eventual incêndio".

"Neste fogo, provavelmente, não teria feito diferença. O fenómeno extraordinário que ocorreu foi de grande amplitude, não teve a ver com o gerir aqui ou a acolá", afirmou, ao referir que pela análise realizada pelo grupo da comissão técnica na estrada nacional 236-1 terá havido "limpeza parcial".

Confrontado com a pergunta se haveria influência para evitar as mortes, Joaquim Sande Silva, docente e doutorado em Engenharia Florestal, sublinhou que "não há forma nenhuma, mesmo com o avanço das ciências, de tentar simular um cenário destes".

O professor do ensino superior apontou ainda que a diferença entre o incêndio de Pedrógão Grande e o de Góis, que se desenrolaram quase ao mesmo tempo, foram "os fenómenos locais associados a mecanismos de convenções" e a uma "grande velocidade do vento", sobretudo a partir das 20:00.

"No caso de Góis não existe descrição de um fenómeno com estas características. É esta a diferença entre os dois incêndios", constatou, acrescentando ainda que depois das 16 horas o incêndio seria "muito difícil de controlar fosse com que meios fosse".

Joaquim Sande Silva disse ainda que o "sistema, como um todo, não esta preparado" e continua a acreditar que "não está preparado para eventos desta natureza".

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Segundo o perito, o local da ignição inicial do incêndio, em Escalos Fundeiros, foi identificado pela Polícia Judiciária. "Terá havido alguma interação de um fenómeno externo [relâmpago] e um carvalho, que se encontrava por baixo da linha de média tensão e terá havido uma descarga elétrica nesse local. Verificámos que havia três pontos onde o cabo estava escamado e que terá tocado no carvalho que estava por baixo", explicou.

"Aquele [Escalos Fundeiros] era um local atípico para aquela evolução do fogo, devido à humidade, já que a vegetação baixa, as folhosas predominavam junto à linha de água. Essas condições não são propícias, por alguma razão o incêndio propagou-se ao longo da ribeira", disse.

O julgamento para determinar eventuais responsabilidades nos incêndios de Pedrógão Grande, nos quais o Ministério Público contabilizou 63 mortos e 44 feridos quiseram procedimento criminal, foi retomado hoje após as férias judiciais.

Em causa estão crimes de homicídio por negligência e ofensa à integridade física por negligência, alguns dos quais graves.

Os arguidos são o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, responsável pelas operações de socorro, dois funcionários da antiga EDP Distribuição (atual E-REDES) e três da Ascendi (que tem a subconcessão rodoviária Pinhal Interior), e o ex-presidente da Câmara de Castanheira de Pera Fernando Lopes.

Os presidentes das Câmaras de Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, Jorge Abreu e Valdemar Alves, respetivamente, também foram acusados.

O antigo vice-presidente da Câmara de Pedrógão Grande José Graça e a então responsável pelo Gabinete Florestal deste município, Margarida Gonçalves, estão igualmente entre os arguidos.

Aos funcionários das empresas, autarcas e ex-autarcas, assim como à responsável pelo Gabinete Técnico Florestal, são atribuídas responsabilidades pela omissão dos "procedimentos elementares necessários à criação/manutenção da faixa de gestão de combustível", quer na linha de média tensão Lousã-Pedrógão, onde ocorreram duas descargas elétricas que desencadearam os incêndios, quer em estradas, de acordo com o Ministério Público.

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