Dois anos após tragédia

Pedrógão, terra que ninguém esquece

Pedrógão, terra que ninguém esquece

Pedrógão Grande vai ficar na história para sempre pelas piores razões. Um incêndio que deflagrou na aldeia de Escalos Fundeiros e se alastrou rapidamente a todo o município e aos concelhos vizinhos provocou a morte a 66 pessoas, 47 das quais na EN236-1, e mais de 250 feridos.

As chamas não pouparam animais, casas e empresas e deixaram um rasto de destruição na paisagem, antes dominada por uma vasta área de floresta. Inúmeras árvores de grande porte, que aguardam ser abatidas, continuam a recordar a tragédia a quem ali vive. Dois anos depois do dia fatídico, o primeiro-ministro, António Costa, estará esta segunda-feira em Castanheira de Pera para reunir com os autarcas deste concelho, de Figueiró dos Vinhos, de Pedrógão Grande, de Góis, de Pampilhosa da Serra, de Penela e da Sertã. Segue-se uma missa, na Igreja Matriz e a assinatura de um protocolo de entendimento entre a Associação de Vítimas de Pedrógão Grande e a Infraestruturas de Portugal para a construção de um memorial às vítimas.

Faz três vezes por semana fisioterapia em Coimbra, não dobra os dedos, mas já conduz. Apoio psicológico fundamental na recuperação.

José Carlos Santos, 39 anos, está determinado a recuperar a vida que tinha antes do incêndio que lhe desfigurou 40% do corpo, o deixou em coma 26 dias, e ainda hoje o obriga a ir três vezes por semana a Coimbra fazer fisioterapia.

Dois anos depois, sente mais força, já consegue andar e mexer as mãos, mas anda em luta com os dedos, que só dobram se os forçar. Voltou a conduzir, mas só distâncias curtas: cansa-se muito e fica com a vista seca.

"A primeira vez que me vi ao espelho não me reconheci. Foi um choque", recorda José Carlos. Desde então, já fez oito cirurgias: ao dedo, a um olho e seis transplantes de pele na face, a que se seguirão outras. Desde 2017, usa diariamente um fato compressivo nas pernas e braços e uma máscara na cara para "baixar" as cicatrizes. Apesar de não ter dores, custa-lhe estar em pé: sente "agulhas" nas pernas, a zona do corpo mais afetada.

O madeireiro explica que não chegou a ser apanhado pelas chamas que se aproximaram quando estava a trabalhar na floresta, com o cunhado e com um empregado. "A roupa não ardeu. O problema foi o impacto do calor." Assim que se aperceberam que o fogo estava descontrolado, entraram no carro, mas um pneu rebentou, a viatura despistou-se e começou a arder.

Percorreram 200 metros a pé, até serem recolhidos por um carro dos bombeiros, que passava porque foi a única saída que encontrou. Duzentos metros de inferno que lhes mudariam a vida para sempre.

O cunhado, Carlos Guerreiro, ficou com 85% do corpo queimado, e o empregado perdeu oito dedos. "Não tínhamos noção do estado em que estávamos. Chegou a um ponto em que já não sentíamos dor nenhuma".

A viagem continuou atribulada. Foram transferidos para uma ambulância, que, pouco depois, começou a arder, e a viagem até ao hospital foi feita numa carrinha de nove lugares. "Nem os bombeiros sabem como é que conseguiram enfiar lá a maca, onde estava o Carlos Guerreiro". "É difícil esquecer. Está aqui guardado como se fosse uma pen". Quando esteve internado 52 dias em Coimbra, teve de recorrer a um psiquiatra, porque não conseguia dormir. Seguiram-se seis meses na Unidade de Cuidados Continuados de Pedrógão Grande. O regresso a casa foi difícil, pois passava muito tempo sozinho. A mulher estava a trabalhar e a filha na escola, pelo que teve de pedir apoio de um psicólogo à companhia de seguros. "Se não fossem eles, a esta hora não estaria aqui sentado".

Além dos danos que sofreu na pele, lidar com a morte de amigos não foi fácil. Até ao momento, recebeu uma tranche de cerca de 50 mil euros do Estado, que investiu na empresa de jardinagem e exploração florestal onde quer voltar a trabalhar.

Escaparam da morte, mas não conseguiram evitar que o fogo destruísse a casa. Convivem com um cenário de devastação à sua volta.

O dia a dia de Albino e Graziela Domingues, moradores em Vila Nogueira, Pedrógão Grande, pouco mudou desde o incêndio que engoliu a casa e devorou animais, sem dó nem piedade. Resignado com o golpe do destino, o agricultor lamenta sobretudo o avançar da idade, que lhe roubou a energia para amanhar a terra, e a destruição dos pinheiros, de onde retirava resina. Além das pensões de reforma, contam com a ajuda do filho, com quem moram.

Graziela, 72 anos, descansa num banco de madeira, na parte exterior da casa, enquanto Albino, 73 anos, anda de volta dos animais, a poucos metros de distância. Apesar de as paredes da casa terem sido pintadas de branco, a fachada traseira e a chaminé ficaram esquecidas, mas o casal lamenta, sobretudo, que não tenha sido colocada uma calha de um dos lados da chaminé, para escoar a água quando chove, pelo que têm infiltrações na cozinha.

No terreno ao lado, apesar de a vegetação rasteira ser verdejante, o cenário de devastação é impossível de esquecer pela presença de carvalhos de grande porte, que pintaram a paisagem de negro e que constituem motivo de preocupação por estarem a "cair aos bocados".

"Até que a gente seja viva, não nos vamos esquecer desse dia", assegura Graziela. No seu caso, pelo cenário de devastação que presenciou e porque perdeu a visão por completo, devido ao fumo intenso.

"Quando aqui chegámos, o lume vinha ali [cerca de 250 metros de distância]. Vinha tocado a vento e mandou línguas de fogo. Ainda fomos buscar a mangueira, mas começou a arder", recorda Albino. Ao perceber a gravidade da situação, foram a casa buscar o dinheiro e entraram de imediato no carro, para escaparem às chamas. Não sem antes se aperceberem que a casa já estava a arder.

O agricultor diz que, apesar de ser dia, o céu estava todo escuro, como se fosse noite. "O lume andou por cima e entrou em casa, pelo telhado. Só se via fumo. Depois, caiu no chão e espalhou-se, como se fosse uma onda do mar, e ficou tudo a arder", conta. A preocupação foi fugirem dali o mais depressa possível, tal como outros vizinhos, embora sem saberem bem para onde ir, já que havia chamas em todas as direções. "Eram carros por todo o lado. Parecia uma procissão".

O trajeto escolhido levou a família Domingues à EN 236-1, conhecida mais tarde por "estrada da morte", por ali terem morrido 47 pessoas. "O vento parecia um ciclone. Era fogo por todo o lado. Jogámos com o lume, ora mais para a esquerda, ora mais para a direita", explica Albino. "Foi uma desorganização tremenda e o fogo ganhou força. Andámos ali uma hora, vimos carros a arder, mas safámo-nos", sublinha. "Foi porque não havia de ser", observa Graziela.