Lisboa

"Alfama está morta" no Santo António deste ano

"Alfama está morta" no Santo António deste ano

Com as ruas vazias e os arraias cancelados, moradores do bairro com as marchas mais premiadas dos últimos tempos estão de "luto". Mais de 1000 agentes da PSP e da Polícia Municipal vão estar esta noite de sexta-feira nas ruas de Lisboa para evitarem festas espontâneas de Santo António. Em Alfama, a vigilância já acontece há alguns dias.

Em Alfama, por estes dias, vivia-se num corrupio para que tudo corresse bem na noite mais esperada do ano, véspera de Santo António. No Largo do Chafariz de Dentro, em tempos "normais" já se vendiam manjericos e farturas e montavam-se mesas e palcos para as sardinhadas e arraiais. Pelas ruas e becos de um dos bairros mais típicos da capital, cheirava a sardinhas e sentia-se o fervor dos ensaios das marchas populares. Agora, impera um silêncio e uma mágoa difícil de aceitar.

"Tenho vontade de pôr uma cruz preta na porta a simbolizar o luto que sinto", diz Manuela Gonçalves, 68 anos, dona de uma mercearia antiga do bairro. No início desta semana foi surpreendida por um agente da PSP quando tentava passar uma fita decorativa da sua varanda para a da vizinha. "Disse-me que não podia enfeitar as varandas para não atrair festas", conta. Nem isso, nem assar sardinhas. Ainda pensou em colocar um grelhador à porta da loja, mas as restrições de horários a vários estabelecimentos, anunciadas pela Câmara de Lisboa no passado dia 10 de junho, impedem-na de o fazer.

"Vou ter de fechar a loja às 16.00 horas. Não podemos fazer nada, parece que vivemos num condomínio fechado, acho um exagero. É com um fogareiro à porta e adornos que vou atrair uma avalanche de pessoas? Já andávamos tristes, assim andamos ainda mais", desabafa a moradora, no bairro há meio século. "Uma viatura dos bombeiros, por exemplo, podia percorrer o bairro com o Santo António e colocávamos umas colchas à janela em homenagem, seria menos triste", sugere ainda.

Fernanda Pereira, 64 anos, também já estava pronta para assar sardinhas num fogareiro à porta de casa, num rés-do-chão na Rua de São Miguel, mas viu os planos caírem por terra. "Os polícias andaram cá, esta semana, a avisarem-nos que não podemos fazer nada. Nasci e cresci aqui, sinto uma tristeza muito grande", confessa. Eduardo Amaral, 76 anos, também nasceu na mesma rua onde mora hoje e lembra-se bem das origens da tradição.

"Os festejos começaram a celebrar-se às portas. Fazíamos muitas sardinhas para várias pessoas. Este ano não festejo nada, vai ser muito diferente, mas temos de respeitar", diz. O sentimento é partilhado por vários moradores do bairro lisboeta onde nasceu a marcha popular mais premiada nos últimos anos. "O largo já não está cheio e não se sente a alegria dos marchantes", desabafa Regina Cabral, 77 anos, que chegou a marchar quatro anos, na década de 70.

"Alfama está morta"

Olga São João, 71 anos, diz que os santos populares fazem parte dela. "Até do meu nome", brinca. Por estes dias já tinha a banca, onde vende manjericos e ginjinha, montada, mas não é a perda do negócio que a preocupa. "Não encomendei os produtos, por isso não tenho prejuízo, só não ganho. Alfama está morta, está um deserto, é isso que me aborrece", lamenta. Mas não vai deixar de celebrar. "Ponho música e danço em casa, espero que as minhas vizinhas façam o mesmo", lança o desafio.

Rita Barbosa, 29 anos, marchante desde 2006, está a pensar num convívio mais familiar. "Não vou deixar de acender o fogareiro na varanda, comer sardinhas e beber sangria com a família", garante. Ana Palma, 36 anos, ex-marchante, vai fazer um caldo verde para esquecer-se "por momentos" que este ano não há arraiais nem marchas. "Por esta altura estávamos já muito cansados, dá muito trabalho receber lisboetas e estrangeiros, mas é o melhor mês do ano. Só logo é que vou ver, mas provavelmente vou fazer um caldo verde e ver filmes das marchas, vai ser a minha celebração", confidencia.

Sem turistas e moradores

Nos últimos anos, Alfama encheu-se de turistas e esvaziou-se de moradores. Com as fronteiras fechadas e sem ninguém a visitar a capital, ficou ainda mais a descoberto a falta de residentes. "Agora é que se nota como somos poucos. Antes, com os turistas a passear, não se percebia tão bem", diz Rita Barbosa. Com o aumento das rendas e o "boom" turístico vários moradores saíram e alguns já só se encontravam nas marchas. "Há pessoas do bairro que já só via nas marchas e isso também me vai custar muito", admite.

Carina Rocha, 37 anos, marcha desde 2000 por Alfama. Vinte anos é muito tempo, mas o que a liga às marchas populares é um vínculo bem mais forte. Cresceu no meio destas festividades. A irmã é ensaiadora e o pai fundou o Centro Cultural Magalhães, coletividade que organiza a marcha e onde os marchantes de Alfama ensaiam há mais de 30 anos. "O meu pai era o impulsionador disto tudo. Infelizmente faleceu, numa noite de marchas. Tinha de ser nesse dia, porque eram muito importantes para ele. Este ano vai custar-me mais porque nos outros anos, enquanto desfilava, não pensava tanto", confessa na sala de ensaios, entre os trajes que fizeram história no bairro.

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