Ensino Básico

Associação leva as tarefas escolares até casa dos alunos sem computador

Associação leva as tarefas escolares até casa dos alunos sem computador

Associação Mulheres sem Fronteiras transportam os trabalhos de casa a 112 crianças de um bairro em Lisboa. Sem computadores, muitos não os teriam feito.

Assim que vê Alexandra Alves Luís a chegar com um saco carregado de fichas, Fabiana Garcia, 17 anos, nem precisa de descer para saber da prima e da sobrinha. "Elas já entregaram os trabalhos de casa?", grita à janela. Alexandra confirma-o, enquanto se prepara para distribuir mais. É assim há três meses. No bairro Bensaúde, em Lisboa, 112 crianças ciganas do Agrupamento de Escolas Piscinas Olivais receberam os trabalhos de casa desta forma por não terem acesso ao ensino à distância. A Associação Mulheres sem Fronteiras recebia as tarefas dos professores e entregava-as depois no bairro.

É numa mesa de madeira improvisada, entre carrinhas estacionadas e música proveniente de um carro, que Alexandra Alves Luís, presidente da Associação Mulheres sem Fronteiras, distribui os próximos trabalhos de casa e oferece lápis. Hoje é o último dia do ano letivo, mas ainda há uma ficha de autoavaliação e uma atividade para fazer. "Gostava que desenhassem como foi ir à escola desde casa", desafia. Israel Silva, 12 anos, dispensa logo o repto. "Os desenhos são para elas", atira. "Já sou crescido para fazer desenhos e sou mais das "contas", gosto muito de matemática. Tinha boas notas, mas sem aulas esqueci-me de quase tudo", admite.

"Queria mais trabalhos"

O meu irmão precisava era de um computador e eu de um tablet. Alguns receberam e outros não", interrompe a irmã, Didiana Silva, 8 anos, que não deixou, porém, de fazer os trabalhos. "A minha prima ajudava-me e tornava-se mais fácil, foi divertido", garante. Com a chegada das férias de verão, avisa Alexandra, "vamos continuar a desenvolver atividades, de expressão plástica por exemplo". Josiane Silva, 8 anos, reage logo. "Estou triste, queria ter mais trabalhos da escola", confessa, de brilho no olhar, a aluna do 2.º ano, que um dia gostava de ser professora.

A pandemia acentuou as desigualdades sociais, mas também permitiu que Manasses Vicente, 10 anos, tivesse internet e computador pela primeira vez. "A escola emprestou-me e gostei muito de explorar as tecnologias e fazer pesquisas", diz entusiasmado. Mas muitos não tiveram essa sorte. "Se não fosse a entrega dos trabalhos em casa, as minhas filhas não teriam conseguido acompanhar a escola", lamenta Marco Silva, pai de duas crianças de 7 e 8 anos.

Esta iniciativa insere-se no projeto Bensaúde Vai à Escola da Associação Mulheres sem Fronteiras, que pretende reduzir o absentismo escolar, e é financiado pela Câmara de Lisboa através do programa BIP/ZIP - Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária.

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