Covid-19

Crianças e adolescentes trocam cartas com os mais velhos para combater solidão

Crianças e adolescentes trocam cartas com os mais velhos para combater solidão

As mais de sete décadas que separam Ana Gaspar, 90 anos, de Carlos Dinis, de 15, nem se sentem. Começaram a trocar cartas virtuais e, logo na primeira, as origens alentejanas e o clube de futebol em comum aproximaram-nos.

Carlos faz parte dos 30 alunos da Associação Escola 31 de Janeiro, em Cascais, e Ana de 25 idosos que a Associação Mais Proximidade Melhor Vida está a pôr em contacto neste período de isolamento social devido à Covid-19. No final da pandemia haverá um encontro para se conhecerem pessoalmente.

A ideia do projeto "De casa para casa" é "estimular o convívio intergeracional e combater a solidão que se tem abatido nos idosos com uma dimensão nunca antes sentida", acredita Ana Sousa, técnica da Mais Proximidade Melhor Vida. Alguns alunos, da pré-escola ao 9º ano, da Escola 31 de Janeiro, enviam cartas por email para a técnica, que depois as lê por telefone aos mais velhos e convida-os a responderem. "É a forma mais viável de se fazer em época de pandemia", diz. Os mais novos, que ainda não sabem escrever, fazem desenhos, com o apoio dos pais.

Ana Sousa já acompanha os idosos, que agora integram este projeto, há algum tempo. No dia de ler a carta, garante, "tudo é diferente". "Há um sorriso, uma gargalhada, uma história das crianças que faz lembrar o passado deles", descreve. Ana Gaspar, que já recebeu duas do aluno do 9º ano Carlos Dinis, confirma que o dia de ouvir a carta "é mais feliz". "Vivo sozinha e ele acaba por me fazer muita companhia. Não o conheço e é já como se fosse um neto", confessa.

Antes do confinamento ainda ia ao café, na Mouraria, onde vive, "dar uma volta para desanuviar a cabeça e ver pessoas". Agora, fechada em casa há mais de um mês, só a carta do jovem de 15 anos a tem levado a visitar outros lugares. Trouxe-lhe memórias da terra-natal, Portalegre, de migas e outros pratos tradicionais alentejanos e do Benfica, o clube que também partilham.

"Achei piada quando a senhora me disse que também é alentejana, como a minha mãe, e que gosta de migas, mas não sabia fazer. Já pedi a receita à minha mãe para enviar", conta Carlos, entre risos. "Há muitas pessoas que estão sozinhas e com esta crise este apoio é importante", acredita.

Esmeralda Amoroso, 72 anos, não está tão sozinha como Ana Gaspar. Quando foi decretado o estado de alerta por causa da Covid-19 foi para casa da filha, na Charneca. Mas teve de deixar o teatro, o coro e a pintura, atividades que praticava na freguesia de Santa Maria Maior, em Lisboa, onde mora. "Agora estou menos ativa e foi muito engraçado receber a carta. A iniciativa é ótima, pois vivemos numa sociedade onde só conhecemos as pessoas mais próximas de nós e é bom conhecermos outras", observa.

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