Lisboa

Da sopa e pão ao aconchego da CASA

Da sopa e pão ao aconchego da CASA

Instituição dinamizada por Sidónio Pais cumpre um século de existência.

Rostos fechados, fila desorganizada à porta à espera do almoço. Há os mais exuberantes, que metem conversa e pedem um cigarro ou "cinco cêntimos para um café". Fogem da objetiva e quando percebem a presença da reportagem do JN, dizem que "não há histórias para contar". "Nem ao meu pai dou notícias", diz, com ar gingão, um jovem de 16 anos. É assim, todos os dias, o ambiente à porta da "Sopa dos Pobres" ou "Sopa do Sidónio", na Avenida Almirante Reis, em Lisboa.

Herdeira das "cozinhas económicas", fundadas nos finais do século XIX, a instituição seria rebatizada, em abril de 1917, pelo então presidente da República Sidónio Pais. Daí cresceu o cognome popular de "Sopa do Sidónio".

Na altura, era uma espécie de cantina social destinada à população pobre em geral da cidade. Ali, fornecia-se apenas pão e sopa aos utentes. Um século depois, tudo mudou. O espaço chama-se agora CASA - Centro de Apoio Social dos Anjos - e é gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Desde 1992, ali cuida-se de situações de exclusão social e não de pobreza, que são conceitos diferentes. A partir do projeto Renascer, o serviço passou a ser uma resposta para a população sem abrigo.

Mas a CASA é hoje muito mais que um refeitório social. "A par das refeições, temos um centro de acolhimento temporário para pessoas com problemas de saúde e sem dependências, que saíram do hospital e não têm um lar para recuperar, um centro de terapia ocupacional e até uma lavandaria, onde podem entregar roupa suja e receberem-na lavada e passada", revela ao JN Bruno Caldeira, diretor da CASA.

Passada a confusão da entrada, o ambiente é calmo na hora de almoço. De olhos no chão, os utentes chegam, pegam no seu tabuleiro dirigem-se à mesa e comem em silêncio. "A refeição é composta por sopa, prato e sobremesa ou fruta. Podem repetir a sopa", explica o responsável.

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Por dia, a CASA serve uma média de 400 refeições. "Mais almoços do que jantares, e com mais gente quando é carne do que quando é peixe", observa Bruno Caldeira. O perfil típico é de homens entre os 40 e os 50 anos, embora haja alguns jovens e pessoas com mais de 65 anos. "Muitos com problemas de dependências, sobretudo alcoolismo".

Rendas "proíbem" quartos

A par de todos estes apoios, a Misericórdia de Lisboa tenta também apoiar os que querem deixar a rua para viver em quartos. Bruno Caldeira destaca, no entanto, que a tão falada pressão turística ao nível das rendas já chegou também a este setor.

"As rendas, aqui na zona, estão a atingir preços incomportáveis. Paga-se por um quarto 250 euros, quando há dois, três anos a média era de 150", destaca o diretor do centro. "A reintegração social e profissional nem sempre é um processo fácil", conclui, lembrando que, por isso, há pessoas que ali vão há 20 anos.

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