Lisboa

Feirantes à força para fintar o desemprego

Feirantes à força para fintar o desemprego

Carla mostra, com grande paciência e até algum orgulho, a enorme quantidade de "bugigangas" que tem diante de si, mas pede ao JN para ser identificada apenas pelo primeiro nome. Tem consciência de que não deveria estar a vender sem licença na Feira da Ladra, em Lisboa, embora saiba que é "só mais uma" num grupo cada vez maior de pessoas, sobretudo jovens, que ali acorrem sem as devidas autorizações.

Com 28 anos, Carla perdeu o emprego de funcionária administrativa devido a uma redução de pessoal na empresa onde trabalhava e, enquanto não consegue novo posto de trabalho, agarra-se ao que pode para "ganhar qualquer coisa".

À sua frente, está um bizarro conjunto de artigos: candeeiros velhos, uma lanterna usada e uma torradeira prestes a desconjuntar-se, mas também louça variada, livros para todos os gostos e um ou dois CD.

"Peguei em coisas que tinha em casa ou na casa dos meus pais e que não usávamos e comecei a vender. Também já tive dois ou três amigos que, sabendo que venho para aqui, me deram algumas coisas para vender", explica.

"Mística" e uns trocos

Carina e Rita, estudantes de Sociologia, de 22 anos, vendem artesanato pela "mística da feira" e pelo dinheiro que conseguem juntar às mesadas dos pais. "Temos uma amiga que adora fazer estas coisas mas não tem paciência para as vir vender", explica Carina, apontando para uma colecção de marcadores de livros, carteiras feitas com pacotes de sumos e outras peças do género. "Por isso, ela faz, nós vendemos e depois repartimos o dinheiro", explica.

As duas jovens também não dispõem da necessária autorização camarária para vender na Feira da Ladra. "Só vimos cá de vez em quando, não vale a pena o trabalho e o dinheiro", diz Rita, que até desconhece a existência de uma licença especial, mais barata, para estudantes até aos 25 anos.

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Maria Carvalho, pelo contrário, tem a situação regularizada, apesar de se ter estreado a vender na rua há apenas três meses. Desempregada, começou por ir para a Feira da Ladra comercializar peças de artesanato feitas pelo marido mas o seu stock já inclui produtos tão diversos como DVD, sapatos, protectores solares, um secador de cabelo e até um extintor. "Sempre levo algum dinheiro para casa", diz Maria Carvalho.

Porém, se o número de vendedores, sobretudo jovens, tem aumentado nos últimos tempos, tem ocorrido o oposto no que toca aos clientes, a crer nos mais antigos. "As vendas estão péssimas, cada vez pior", queixa-se Domingos Carvalho, que passa as terças e sábados a comercializar roupa na feira, há 25 anos. "Há dias em que não vendo nada. É duro", diz.

Abílio Antunes, 58 anos, também lamenta a falta de clientela. Vende malas, cintos e outros artigos de pele, tudo feito por ele. O negócio "dá para viver" mas rende pouco.

"As pessoas não valorizam o trabalho artesanal, não ligam a nada. Sobretudo os portugueses", conclui, com um toque de amargura.

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