Lisboa

Homem em cadeira de rodas impedido de andar em autocarro atravessou-se à frente do veículo

Homem em cadeira de rodas impedido de andar em autocarro atravessou-se à frente do veículo

A rampa avariada de uma carreira da Carris levou um deficiente motor a impedir o veículo de partir.

Um homem em cadeira de rodas tem de esperar "várias vezes" pelo próximo autocarro da Carris porque a rampa de acesso ao transporte para pessoas com mobilidade reduzida está avariada. É assim há quatro anos, desde que começou a andar de transportes públicos nesta condição. Na noite de passagem de ano, cansado da situação, decidiu bloquear o veículo. E a contestação valeu a pena, porque a Carris pediu "um autocarro de propósito" para garantir a sua viagem, conta ao JN. No dia-a-dia, porém, o problema persiste.

"Passa o primeiro, o segundo e o terceiro autocarros, todos com a rampa avariada. É uma situação muito recorrente. Quando me dizem para esperar pelo próximo, nunca conseguem garantir-me se estará a funcionar ou não", diz Sérgio Lopes, tetraplégico há 16 anos, desde os 21 anos de idade. Na última noite do ano, voltou a acontecer. A rampa de acesso não estava a funcionar, mais uma vez. "As rampas são elétricas e têm um sistema de desbloqueio manual, que nem sempre funciona. O motorista ainda tentou, mas não conseguiu. Fazem sempre o que está ao alcance deles", relata.

Depois de perguntar qual seria a alternativa, e de ser informado de que teria de esperar pelo próximo, que estava previsto para mais de 1 hora e meia depois, indignou-se e colocou-se em frente ao autocarro. "Sabia que não deixar a careira sair não ia resolver a minha situação, até ia prejudicar os outros passageiros, mas quis dar um alerta à empresa, que tem de assumir responsabilidades por estes episódios", desabafa. Alguns passageiros juntaram-se a ele no bloqueio do veículo e chamaram a PSP. "Ao final de quase uma hora, alguém da Carris teve a iniciativa de pedir um autocarro para me levar. Foi a primeira vez que tomou a iniciativa de resolver a situação", garante.

Sérgio está cansado de reclamar e de pouco ou nada mudar. Recentemente, teve de chamar um táxi para ir a uma consulta médica, por não ter tempo de esperar pelo próximo autocarro. Uma situação que teme que continue a repetir-se. "As rampas manuais têm-se degradado ao longo dos anos, e algumas foram-se partindo. As elétricas avariam. Acho que um autocarro nem devia sair com esse impedimento", diz. "A Carris é das empresas que mais promove a acessibilidade dos seus transportes, mas não basta promover. Têm autocarros adaptados e depois não funcionam?", protesta ainda.

Episódios recorrentes

Carmen Figueira, assistente pessoal de pessoas com deficiência, acompanha pessoas nesta condição diariamente e confirma a regularidade dos episódios. "É todos os dias. Desta vez, pela falta de alternativa de transportes adaptados (o metro estava encerrado), pelas baixas temperaturas que podem comprometer a saúde de uma pessoa tetraplégica e pela falta de resposta útil da Carris, não vimos outra forma de fazer valer os direitos do Sérgio", explica, a também namorada do homem com deficiência motora.

Falta de manutenção

Um ex-motorista da Carris tentou exigir dentro da empresa de transportes públicos de Lisboa "durante três anos" o bom funcionamento das rampas. E não foi o único. "Vários alertam para as avarias, mas a empresa protela e não faz manutenção", acusa. "A maioria dos problemas é falta de lubrificação ou um fusível ou um sensor, avariados. Num único dia é possível reparar todas as rampas, basta alguém querer", garante ao JN.

O ex-funcionário da Carris, que preferiu manter o anonimato, diz ainda que reportou várias situações de passageiros que ficaram na paragem à empresa onde trabalhou até há poucos meses, mas não obteve resposta. "Os motoristas ficam mal vistos e são alvo de revolta dos passageiros. Dói ver as pessoas todas a entrarem no autocarro, e a pessoa deficiente ficar na rua, sozinha, sentindo-se mal e abandonada", lamenta.

Carris tem versão diferente

A Carris, em 2019, transportou mensalmente "uma média de 1570 pessoas em cadeira de rodas". Estas situações de avaria no local, garante ao JN, "são pontuais" e, nestes casos, tem sempre como procedimento "mobilizar imediatamente outros meios para transportar os clientes em cadeira de rodas".

"Foi o que aconteceu na madrugada do passado dia 1, tendo sido enviada para o local outra viatura, que chegou 45 minutos após a comunicação da avaria", explica ao JN. "O maior tempo de espera na reposição do autocarro deveu-se ao facto de os meios disponíveis na rede de madrugada serem mais limitados", justifica ainda.

A Carris está agora a "estudar alternativas para, em períodos como este, da rede da madrugada, poder ter os meios disponíveis de uma forma mais célere". "O funcionamento das rampas é testado com regularidade e tinha sido testado previamente antes do envio do segundo autocarro, que depois de reiniciado permitiu a utilização da rampa", garante ainda.

A empresa de transportes públicos reforça que é "extremamente sensível" a esta questão e "tem investido no sentido de poder servir cada vez melhor os passageiros de mobilidade reduzida". "Todos os novos autocarros foram adquiridos com instalação de rampa. Além disso, a Carris disponibiliza um serviço especial a pedido, de transporte de mobilidade reduzida, em carrinhas mais pequenas", explica. A frota deste serviço, avança ainda, "será aumentada no primeiro semestre deste ano com mais duas viaturas".

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