País

Irmãos vivem em prédio que está em risco de ruir

Irmãos vivem em prédio que está em risco de ruir

Três irmãos habitam num prédio que está em risco iminente de queda, na Ajuda. O distribuidor de gás recusa-se, há muito, a fazer entregas com medo de ser engolido pelas paredes. A Junta de Freguesia diz que há mais casos.

Há cinco anos que Odete, Luís e Jorge empacotaram os poucos bens de maior valor. É uma espécie de seguro. Pode ser que o prédio avise que vai cair e assim é mais rápido saltar para fora com as caixas. Na dúvida, e porque o imóvel pode ruir a qualquer momento, sempre que há um barulho estranho, fogem para a rua.

"O homem do gás já não entra. Tem medo de subir com as botijas. Também já cortei a luz, com medo dos curto-circuitos. Qualquer dia, fico aqui sepultado. Já desisti de arranjar coisas. Se mexo numa parede, cai a outra. Isto está pior que as arribas do Algarve", queixa-se Luís Carvalho, 43 anos, o único dos irmãos que ainda arrisca habitar o segundo andar do número 6 da Calçada do Mirante.

Odete, que tem 53 anos, e que nasceu no prédio, refugiou-se no rés-do-chão com Jorge, num dos fogos devolutos. Nem a vista soberba para o Tejo a conseguiu convencer a ficar. "Cá em baixo, o perigo não é tão visível. Mesmo assim, quando chove desligamos o quadro eléctrico, senão é só faíscas", explica a mulher.

Os irmãos suplicam por ajuda. Sem rendimentos e a enfrentarem situações de desemprego, queixa-se de abandono por parte dos proprietários do prédio e da Câmara de Lisboa, onde está pendente um pedido de realojamento.

Em 2004, uma vistoria efectuada por engenheiros da Câmara não deixava margem para dúvidas quanto ao estado do prédio: "Todos os fogos ocupados deverão ser despejados de pessoas e bens dado o estado de insegurança estrutural em que se encontra o segundo piso, existindo o perigo de ruína iminente do mesmo, arrastando consigo outros pisos".

Ainda assim, nada foi feito. E como os irmãos não têm para onde ir, vivem em permanente sobressalto, apostando na sorte. "Se não fosse a Junta de Freguesia, que veio cá colocar um telhado novo, isto já tinha caído", assegura ao JN Luís Carvalho.

PUB

"Infelizmente este não é caso único na freguesia devido à política que tem sido seguida relativamente à manutenção dos edifícios", diz Joaquim Granadeiro, presidente da Junta da Ajuda, acrescentando que há outros casos idênticos, sobretudo na Rua do Cruzeiro.

O autarca explica que, a Junta efectuou, durante anos, algumas obras nos edifícios ao abrigo de protocolos com a Câmara de Lisboa, nos mandatos de Jorge Sampaio e João Soares. Sem protocolos, a Junta passou apenas a comparticipar a compra de materiais.

Amílcar Lizário, co-proprietário do imóvel, admite ao JN que a última obra de conservação feita no prédio remonta a 1927. "Como é que se pode fazer obras com uma renda de dois euros? Agora só há um contrato de arrendamento, mas quando eram três, tudo somado dava menos de quatro euros", sustenta, acrescentando que o prédio vai ser vendido em breve.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG