Mudança

Lisboa terá de reinventar-se com turismo moderado

Lisboa terá de reinventar-se com turismo moderado

Lisboa bateu, nos últimos cinco anos, todos os recordes de turistas. A cidade nunca esteve tão dependente dos visitantes estrangeiros, mas a pandemia de covid-19 veio mudar o rumo de um crescimento turístico sem precedentes.

Com várias fronteiras fechadas e um futuro que ainda se decide dia a dia, geógrafos e sociólogos acreditam que a cidade terá de se reinventar e apostar num turismo mais sustentável e menos massificado. O Alojamento Local (AL), agora com grandes quebras, terá de investir no arrendamento de longa duração, consideram.

Após três meses de paragem da atividade económica, a capital vai sofrer mudanças profundas. Luís Mendes, geógrafo, não tem dúvidas de que Lisboa precisa de "um novo modelo de produção de cidade" voltado para um turismo mais moderado e sustentável socialmente. "Necessitamos de um turismo que não despeje as pessoas e que se imiscua com a comunidade. A taxa turística deveria ser usada em projetos sociais de apoio às comunidades dos bairros", defende.

O comércio tradicional, agora muito fragilizado, também terá de renascer. "Parte destes negócios vão fechar para sempre, pois sofreram danos irreparáveis. Na baixa, havia ruas inteiras com lojas de souvenirs, que serão afetadas, mas vão florescer gradualmente. Para as lojas tradicionais será mais difícil. Acho que o Governo devia dar mais apoios ao pequeno comércio", diz.

A freguesia de Santa Maria Maior, uma das que recebia mais turistas, será das mais afetadas no período pós pandemia. No bairro de Alfama, "60% das casas estão afetas ao Alojamento Local". "Depois desta queda abruta, o AL terá de restruturar-se. É uma oportunidade de passar para alojamento de média duração e aumentar a oferta de arrendamento acessível da cidade", acredita Luís Mendes.

Sandra Marques Pereira, socióloga, partilha a mesma opinião e diz ainda que esta medida deve ser acompanhada de outras. Entre estas, defende "a criação de apoios avultados na comparticipação das rendas e uma diversificação do comércio de consumos quotidianos, de modo a acabar-se com o comércio excessivamente dirigido a turistas".

Dar outro uso à cidade

João Seixas, geógrafo, defende que deveríamos começar a "experimentar formas diferentes de utilizar a cidade". Estas poderão passar pela redução do espaço para o automóvel e uma maior aposta em mobilidade suave. Apoiar mais os negócios locais e "apostar numa rede de centenas ou milhares de empresas e startups, em todos os bairros das cidades" são outras das possíveis mudanças numa cidade em transformação.