Lisboa

"Mercado da Ribeira não pode morrer"

"Mercado da Ribeira não pode morrer"

As peixeiras já não usam os seus pregões para chamar a freguesia, o burburinho das gentes já não  massacra os ouvidos e há muitos espaços vazios, quando antes nem se via o chão devido à multidão que se acotovelada para apanhar o peixe mais fresco ou a couve mais verde e tenra.

O Mercado da Ribeira, na Avenida 24 de Julho, em Lisboa, está moribundo e a revitalização anunciada pela Câmara é recebida com expectativa. Além dos frescos, pouco mais há para animar o espaço do que bailes, feiras do livro e de coleccionismo.

“Quem visto isto como eu, quando para aqui vim, nem acredita. Isto era um mundo, era o mercado dos mercados de Lisboa. Vinha clientela de tudo quanto era sítio. Agora é um deserto. Era bom que não deixassem morrer o Mercado da Ribeira”, pede Maria da Piedade Simões. Tem 59 anos, mas desde os 14 que trabalha naquelas bancas, primeiro como empregada, depois como patroa.  “Um destes dias, durante a manhã toda, só ganhei 1,70 euros, na venda de um quilo de bananas”.

O “movimento louco” do mercado deu lugar à apatia. “Agora é só para me entreter, não para ganhar dinheiro para pagar as contas”, assegura, por sua vez, Rosa Gomes, que ali vende há mais de 60 anos. “Ainda me lembro do tempo em que os saloios vinham para cá vender de carroça. “Eu, por exemplo, vendia aos 10 quilos de azeitonas de cada vez, agora se forem 250 gramas já é muito. Por vezes, nem uma cebola, que é um produto básico, eu consigo vender”, diz. A seu ver, foi a abertura do Mercado Abastecedor da Região de Lisboa que muito contribuiu para o declínio da Ribeira.
Revitalizar o Mercado da Ribeira é um dos objectivos da Câmara, para transformar este espaço centenário “num pólo de atracção local, turístico, cultural e gastronómico”.

A intervenção, além de estar integrada na futura requalificação do Eixo Terreiro do Paço – Ribeira das Naus – Cais do Sodré – Av. 24 de Julho, marca o arranque de uma estratégia mais vasta. José Sá Fernandes, vereador responsável pelos mercados lisboetas, apresenta, em Setembro, um Plano de Requalificação e Reabilitação dos Mercados.

Para o Mercado da Ribeira, inaugurado em 1882 e que tem 10 mil metros quadrados de área coberta, foi aberto um concurso público para a concessão da exploração do piso 1 e metade da nave Oeste do rés-do-chão, para a criação, preferencialmente, de um centro de degustação e “boutique” de sabores, constituído por múltiplos e diversificados pontos de venda.

No piso superior, a utilização deverá ser cultural, gastronómica, educacional e de lazer, que inclua centro de exposições, restaurante, bar, cafetaria de excelência, espaços multimédia e de divulgação e promoção turística, cultural, pequenos auditórios e zonas de serviços. O futuro concessionário poderá explorar ainda uma área de esplanada no exterior, e um quiosque, também com esplanada, no jardim da praça D. Luís I.

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O concurso prevê ainda a execução obrigatória de várias obras de melhoramento no edifício, a cargo do concessionário, tais como iluminação, substituição de pavimentos e climatização, no valor mínimo de 550 mil euros.

“Espero sinceramente que resulte, porque precisamos mesmo de clientes. Ainda me lembro do tempo em que os clientes eram tantos que nem se via o chão. Agora quase não se faz dinheiro. É chapa ganha, chapa gasta”, diz Carla Barros, uma das peixeiras do Mercado da Ribeira.

A intervenção anunciada pela Câmara poderá ser o “balão de oxigénio” que o espaço necessita, mas Carla Barros critica o facto de a autarquia licenciar supermercados nas imediações dos mercados. Sublinha ainda que a falta de estacionamento é outro dos calcanhares de Aquiles do Mercado.

Alice Alves, que vende peixe no mercado há 36 anos, não se lembra de “tempos tão maus” e garante que há vários anos deixou de “gastar a garganta” com pregões. “Agora temos é que pedir quase de joelhos que comprem”, diz, em tom de brincadeira.

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