Covid-19

Poluição do ar em Lisboa baixa 40% numa semana

Poluição do ar em Lisboa baixa 40% numa semana

Em Lisboa, os níveis médios de dióxido de azoto (NO2), poluente emitido pelos automóveis e indústria, na semana passada baixaram 40% em relação à anterior. Comparando com a mesma semana em 2019, a redução foi de 51%.

Os dados da Agência Europeia do Ambiente foram divulgados hoje e confirmam "grandes reduções" na concentração da poluição nas principais cidades europeias devido às medidas tomadas para combater o novo coronavírus.

A redução sentiu-se em particular no dióxido de azoto, muito graças à queda do tráfego automóvel em cidades com medidas de isolamento social mais apertadas devido à Covid-19, nomeadamente italianas e espanholas. Os dados da Agência Europeia do Ambiente são medidos de hora a hora, em cerca de 3000 estações de monitorização nos países europeus.

"Esta redução está em linha com o que seria esperado, mas vale a pena esperar mais algum tempo para percebermos a magnitude da redução". Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, acredita que "esta análise da Agência Europeia do Ambiente é prematura, porque ainda só compara duas semanas seguidas e as condições meteorológicas fazem toda a diferença". Na semana passada, houve muito vento na segunda e terça-feira, condições que, segundo o engenheiro do ambiente, podem afetar a leitura dos dados. "Se tivermos semanas seguidas com estes valores, aí sim, fará diferença".

O também professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova avisa que este nível de concentração de dióxido de azoto "não é nenhum recorde". Ainda assim, garante que é claro que a poluição reduziu para metade numa semana em que as escolas já estavam fechadas, mas o país ainda não estava em estado de emergência. "Não tenhamos dúvidas que estamos a ter uma redução significativa das emissões de dióxido de azoto, principalmente devido à redução da circulação de veículos a gasóleo, que emitem mais este poluente", afirma Francisco, que acrescenta: "A Universidade Nova analisou os dados do ano de 2019 e em comparação com a média desse ano inteiro, a semana passada teve metade da concentração deste poluente".

A redução da concentração de dióxido de azoto no ar deve-se não só à quebra nas atividades industriais e do tráfego automóvel, mas também à redução do número de aviões a cruzar os ares de Lisboa e do número de cruzeiros a aportar na capital. "Não temos navios praticamente no porto e os voos estão a cair de forma avassaladora", diz Francisco.

Os dados da Agência Europeia do Ambiente mostram cenários semelhantes noutras cidades europeias. Na vizinha Espanha, também na semana passada, Madrid reduziu em 56% os níveis de dióxido de azoto e Barcelona baixou 40%, em relação à semana anterior. No que toca a Itália, em Milão os níveis do mesmo poluente caíram pelo menos 24% nas últimas quatro semanas.

Segundo o diretor executivo da AEA, Hans Bruyninckx, os dados "mostram um cenário preciso da queda da poluição do ar, especialmente relacionado com a redução do tráfego nas cidades". Contudo, "os problemas da qualidade do ar requerem políticas ambiciosas e investimentos a longo prazo" e Bruyninckx alerta que "a crise atual e os seus múltiplos impactos na sociedade vão contra os objetivos de uma transição justa para uma sociedade mais resiliente e sustentável".

Francisco Ferreira sabe que este cenário de melhoria "é conjuntural". "Pode ser que aprendamos que há muita gente a ser afetada pela má qualidade do ar e consigamos garantir que a retoma da economia seja feita de forma mais amiga do ambiente do que é atualmente. Mas é uma esperança muito reduzida. Porque vivemos numa sociedade onde os combustíveis fósseis são o caminho que os Governos habitualmente escolhem, deixando o ambiente para trás", revela o ambientalista, que defende que "não devíamos estar a falar de uma melhoria temporária da qualidade do ar, mas sim de mudanças estruturais, para ficar".

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