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Primeiro semáforo do Mundo para daltónicos chega a Lisboa

Primeiro semáforo do Mundo para daltónicos chega a Lisboa

Equipamento tem agora símbolos que permitem às pessoas com perturbação visual distinguirem as cores. Novidade vai chegar a várias cidades portuguesas e mundiais.

Em quatro passadeiras, no centro de Lisboa, sempre que os semáforos para peões acendem veem-se agora símbolos discretos, que passarão despercebidos a muitos, mas farão a diferença na vida dos daltónicos que ali atravessarem. O código ColorADD para pessoas que têm dificuldade em distinguir as cores começou a ser instalado, na quarta-feira, em alguns semáforos da capital. São os primeiros com informação para daltónicos, que deverão chegar ao Porto, Amadora, Loures, Madrid, entre outras cidades do mundo.

O novo sistema permitirá rapidamente a quem sofre de daltonismo identificar qual a cor do semáforo. "Uma pessoa que vê bem vê o verde e arranca, enquanto que um daltónico pode demorar até 90 segundos para perceber que está verde através das posições dos semáforos. Em termos de segurança rodoviária faz toda a diferença anular esses 90 segundos e é uma forma de tornar a cidade mais inclusiva", explicou ao JN Francisca Ramalhosa, administradora da Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL), no dia em que foi instalado o sistema para daltónicos.

As atuais luzes dos semáforos do cruzamento da Avenida da República com a Avenida Duque de Ávila, e de mais três cruzamentos naquela zona de Lisboa, foram substituídas por outras óticas led de peão com os símbolos para daltónicos. No código ColorADD, criado pelo designer gráfico Miguel Neiva, é atribuído a cores primárias e à cor que resulta da mistura destas uma forma geométrica. Nos semáforos, ao vermelho está associado um triângulo e ao verde uma diagonal por cima de um triângulo.

"Procurei incluir o daltónico e sensibilizar a sociedade de que existem pessoas que não vêm as cores. Nos semáforos falamos de salvar vidas e eliminar acidentes", explica Miguel Neiva. O designer alerta para o facto de ainda existir pouca sensibilização.

"Um daltónico não tem escrito na testa que é um daltónico, o que cria um juízo de valor muito depreciativo sobre a sua limitação. Se uma pessoa em cadeira de rodas não conseguir atravessar a passadeira a tempo de o semáforo mudar de cor, os carros esperam. Se um daltónico confundir as cores não vai haver essa condescendência e ainda é insultado", exemplifica.

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Estigma

Para Tiago Santos, daltónico, que confunde o verde com o vermelho, a nova informação é fundamental. "Normalmente consigo perceber as cores pela posição nos semáforos, o vermelho está em cima e o verde em baixo, mas tenho de investir algum tempo e nem sempre consigo. O código é bastante simples e conseguimos associar automaticamente à cor e atravessar logo", explica ao JN.

Tiago acredita que os semáforos ajudarão ainda a uma maior sensibilização para esta perturbação visual. "As pessoas vão começar a ter curiosidade em perceber porque é que o símbolo existe e a serem mais compreensivas e perceberem que há um estigma. Como não é uma incapacidade visível, quem passa por mim na rua não sabe que sou daltónico e é mais difícil compreender", lamenta.

Com este projeto piloto, uma parceria entre a EMEL, a ColorADD e a fabricante de semáforos ETRA, pretende-se agora "testar a aplicação do código nos semáforos". "Vamos monitorizar o impacto e os resultados para depois avaliar se faz sentido expandir para o resto da cidade", explica Francisca Ramalhosa. Outro dos objetivos da EMEL, acrescenta, "é instalar as luzes led nos semáforos para condutores, mas ainda não há previsões por estarmos dependentes de autorizações e certificações".

A ETRA Portugal é responsável pelo investimento e detém a licença que permite a utilização do código nos semáforos. Maria do Carmo Castro, diretora geral da ETRA, não avança o valor do investimento, mas explica que "o custo para as câmaras municipais que aderirem será o mesmo que já têm a substituir as óticas atualmente".

A ETRA já entrou em contacto com outras câmaras municipais na Grande Lisboa, como Loures e Amadora, e no Porto, onde a instalação das luzes com informações para daltónicos nos semáforos deverá ser feita brevemente. "No Porto estão a decidir a rua onde faz sentido", avança. O objetivo é chegarem ainda a cidades como Madrid, Valência, Barcelona, Vigo, e outras da América Latina. "Em Lisboa foi dado o primeiro passo para levar ao resto do mundo", conclui.

O código ColorADD criado por um designer português está em 135 países. Em Portugal está no metro do Porto, Carris, hospitais de São João e dos Capuchos, parques da EMEL, estádios de futebol, entre outros.

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