Lisboa

Suportou anos de violência e viveu na rua mas aprendeu a ler e quer escrever um livro

Suportou anos de violência e viveu na rua mas aprendeu a ler e quer escrever um livro

Ana Maria Santos sofreu maus-tratos dos pais e suportou agressões do companheiro durante 17 anos. Agora recuperou os filhos, aprendeu a ler, e já sonha escrever um livro sobre a sua vida.

A vida de Ana Maria Santos dava um livro. E provavelmente dará. Uma obra que a própria quer escrever, apesar de ainda há apenas um ano ser analfabeta. A mulher, de 41 anos, é a mais recente "conquista" do Vassouras e Companhia, projeto da Junta de Freguesia de São José, em Lisboa, que visa o apoio domiciliário a idosos.

Violência é a palavra que a acompanhou toda a vida. "Acho que começou desde a barriga da minha mãe", diz. Os pais eram alcoólicos, o que a levou a sair cedo de casa. Juntou-se com um homem de quem haveria de ter quatro filhos, hoje com 18, 17, 15 e 9 anos. Só que nunca soube o que era viver em harmonia. "Aguentei 17 anos de violência doméstica", recorda, emocionada.

Deste relacionamento ficaram os filhos e as marcas para uma vida. "Fiquei sem dentes porque ele me bateu com botas de aço e perdi parcialmente a visão no olho direito", conta.

Chegou o dia em que se encheu de coragem e pediu apoio a uma associação, que lhe deu abrigo a ela e aos quatro filhos. Até que o companheiro os descobriu, obrigando à intervenção das autoridades. Os filhos foram entregues a instituições e Ana foi viver para a rua.

Na rua e sem apoio

"Todos me fecharam as portas, até a minha irmã me negou comida", adianta. Uma casa abandonada no Bairro da Madre de Deus foi o seu refúgio durante três anos. Para comer, recorria às carrinhas de uma instituição de apoio aos sem-abrigo. Um dia uma broncopneumonia quase lhe acabou com a vida, mas, entretanto, conheceu um voluntário de uma associação com quem acabou por ter uma relação que ainda hoje mantém.

Chegou a trabalhar na Junta de Freguesia dos Anjos, mas terminado o contrato, voltou a ficar sem apoio e na rua. A vida só mudaria definitivamente em janeiro de 2012, quando, através do Centro de Emprego, conheceu o projeto Vassouras e Companhia.

Em São José, além de começar a trabalhar cumpriu outro sonho: aprender a ler. Duas vezes por semana, frequenta as aulas de alfabetização para adultos e, garantem os monitores, tem feito grandes progressos. "Já não olho para um livro com aquela sensação estranha de não fazer ideia do que lá está escrito", diz, confessando a mágoa de durante anos "querer ler uma história à minha filha e não ser capaz".

Com novas asas para voar, chega o desejo maior: "Quero escrever um livro com a minha história para mostrar a outros que nunca se deve desistir", destaca, lembrando que ela própria chegou a equacionar o suicídio.

O tribunal decretou, entretanto, que a filha mais velha pudesse abandonar a instituição para ir viver com a mãe. "E os outros três também vão viver comigo", conta, abrindo, pela primeira vez, um sorriso radiante.