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Um terço dos universitários de Lisboa já sofreu abusos sexuais

Um terço dos universitários de Lisboa já sofreu abusos sexuais

A maioria dos estudantes universitários da Área Metropolitana de Lisboa já foi vítima de algum tipo de importunação sexual. Dentro do campus universitário, não se sentem inseguros, mas o medo cresce nas imediações da instituição académica, no trajeto até casa.

A esmagadora maioria (93,2%) dos alunos já foi abordado no parque de estacionamento e 40,8% sentiram medo na paragem de autocarro ou estação de metro. Um terço dos estudantes já sofreu, pelo menos uma vez, crimes de violência sexual que envolvem contacto físico.

Estas são algumas conclusões do estudo Violência Sexual na Academia de Lisboa: prevalência e perceção dos estudantes, realizado pelo Centro de Estudos da Federação Académica de Lisboa (FAL), e apresentados ontem à tarde na Universidade de Lisboa.

O inquérito foi realizado entre 2018 e 2019. Envolveu 995 estudantes, com idades entre os 17 e os 30 anos, maioritariamente da Universidade de Lisboa (45,2%) e da Universidade Nova (19,5%). Só um quinto dos inquiridos não foi alvo, pelo menos uma vez, de comentários ou olhares provocatórios de natureza sexual. Mais de metade (72,2%) já se sentiu incomodado pela forma como olharam para si e 65,5% experienciaram, pelo menos uma vez, comentários de natureza sexual.

Não denunciam

A maioria percebe estar perante violência sexual quando há contacto físico indesejado, mas quando se trata de abuso emocional, a perceção é diferente. Mais de metade (62,4%), por exemplo, não considera um piropo como violência sexual, apesar da sua criminalização prevista na lei, punível com prisão até três anos. Esta é uma das conclusões que a FAL considera mais grave. "Assusta-nos a leviandade com que as pessoas encaram os piropos. O assédio sexual é um crime e os estudantes consideram normal, como se fosse compreensível e até aceitável", diz Sofia Escária, presidente da Federação Académica de Lisboa. "Normalmente tudo o que precede um contacto físico mais grave é desvalorizado e até permitido, o que faz com que cheguemos a situações limite de crimes graves", reforça. Apesar de 34,2% dos estudantes já ter sofrido pelo menos uma vez crimes de violência sexual que envolve contacto físico, durante o período da sua frequência universitária, 89% nunca denunciou o caso e raramente o fazem à própria instituição que frequentam

Prostituição nos parques de estacionamento

Nos últimos anos, Sofia Escária alerta ainda para outro problema denunciado por vários alunos - a prostituição nos parques de estacionamento junto às instituições académicas da capital. "É uma realidade grave que já tínhamos detetado há uns anos, mas nada mudou", alerta. "Pessoas fora da instituição vão para os parques de estacionamento da cidade universitária prostituir-se. Encontrámos preservativos nos arbustos e no chão", denuncia a presidente da FAL.

Reunião com a Câmara

Preocupada com os resultados do estudo, a Câmara de Lisboa contactou esta semana a Federação Académica de Lisboa. As duas entidades vão reunir-se brevemente para pensarem em novas campanhas de sensibilização e definir medidas concretas, desde rondas policiais, iluminação das ruas, entre outras. Este fim de semana, a FAL vai reunir ainda com várias direções associativas académicas e propor "um estudo a nível nacional para se conhecer melhor a realidade de todas as academias", avança Sofia Escária.

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