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Vendedores de mercado de Lisboa sentem-se discriminados

Vendedores de mercado de Lisboa sentem-se discriminados

Os vendedores do Mercado 31 de Janeiro, no centro de Lisboa, sentem-se discriminados quanto à atribuição de apoios financeiros e medidas de higiene e segurança, comparativamente aos restantes mercados da cidade.

A Câmara aprovou medidas de apoio a estes estabelecimentos, como a cobrança de apenas metade das taxas de ocupação, mas, segundo os comerciantes, a Junta de Freguesia de Arroios, que gere o espaço, não adotou estas recomendações na totalidade. Os vendedores, com quebras de venda superiores a 80%, pedem mais ajuda.

Pelas 10 horas no mercado 31 de Janeiro não se vê quase ninguém. Vão chegando alguns clientes, mas não os suficientes para os comerciantes fazerem face aos prejuízos que acumulam desde o início da pandemia. O restaurante Cantina, com as vitrines praticamente vazias, espelha os dias difíceis. "Tivemos quebras de 80% no restaurante e no talho de 50%. Vendemos uma sandes e fazemos dois ou três takeaways por dia. Acho triste numa altura destas não termos apoios", lamenta António Martins, proprietário. Abdul Mohamed, vendedor de frutas e legumes, perdeu muitos clientes, principalmente da restauração e hotelaria. "Não estamos a lucrar, mas temos de trabalhar", diz.

"Um viveiro de covid"

Prejuízos que não têm sido acompanhados de apoios financeiros. Segundo António Martins, o mês passado recebeu uma fatura de 1000 euros de taxa de ocupação, mais 70 euros do que pagava antes. "Ainda não paguei, não tenho dinheiro", queixa-se. Susana Veloso, peixeira, lamenta a falta de ajuda financeira. "Somos um dos mercados com rendas mais caras, é inacreditável não termos tido apoios", reclama. Ana Videira, florista, também esperava mais ajuda. "Temos muito menos movimento, não faz sentido não nos ajudarem. Pagávamos 500 euros e este mês pagamos 700 euros, ninguém nos avisou. Vimos apenas na fatura".

Os vendedores queixam-se ainda da falta de higiene e segurança, uma vez que, segundo estes, já houve 14 pessoas infetadas com covid-19, tendo uma delas falecido a semana passada devido ao vírus. "Isto é um viveiro de covid. Houve uma vendedora que trabalhou 10 dias depois de testar positivo, teve de vir cá a polícia", conta Susana Veloso. Segundo a vendedora de peixe, assim que souberam dos casos contactaram a Direção Regional de Saúde, "que disse que a Junta tem meios para solicitar a testagem de todos os comerciantes, mas nada foi feito".

O mercado já tem equipamentos de proteção individual, mas foi preciso "muita insistência". "Mandei imensos emails para colocarem dispensadores de álcool, só o fizeram em agosto e foi preciso vir cá a ASAE", acrescenta Susana, que pondera avançar com uma queixa-crime contra a Junta "por desresponsabilização". Marco Sebastião, vendedor de frutos secos, pede "um maior cuidado da Junta". "Podia medir a temperatura e fazer testes rápidos. Não estamos numa bolha, há clientes. No sábado o mercado enche e não há fiscalização", lamenta.

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Junta de Freguesia isenta quem fechar

A Junta de Arroios diz que não houve aumentos das taxas de ocupação. "São as previstas. Terminou em janeiro um período destinado a corrigir a taxa de compensação paga pelos comerciantes, que permitia a redução das taxas", explica. A Junta garante ainda que isentou os vendedores do pagamento desta verba de março a junho e que, este ano, isentou "todos os que são obrigados a fechar". "O poder central não pode esquecer-se que as taxas são a única fonte de receita das freguesias e sem estas, como é o caso das isenções aprovadas, as freguesias atravessam momentos muito complicados para fazer face às despesas", acrescentou.

Quanto aos infetados por covid-19, a Junta diz que "apenas um número limitado de casos foi reportado legalmente", mas não revela quantos. Os comerciantes foram também notificados que "não só a limpeza aumentou como todas as segundas-feiras há uma desinfeção geral do mercado".

A Junta de Freguesia de Arroios diz ainda que "desde março equipou os mercados com dispensadores de álcool gel, ofereceu viseiras e máscaras aos comerciantes", desmentindo a versão dos vendedores de que os equipamentos de proteção individual só foram instalados no mercado 31 de Janeiro após Agosto, na sequência de uma inspeção da ASAE.

"Não obstante, sempre se dirá que no espaço comercial de cada comerciante essa responsabilidade é de cada um. Ainda assim, a Junta não deixa de disponibilizar equipamentos de proteção a todos", acrescenta. A Junta lembra ainda que "de acordo com todas as normas da Direção Geral de Saúde, a testagem é determinada por esta e os rastreios podem ser pedidos pelas entidades patronais e a Junta de Freguesia não é entidade patronal de nenhum comerciante".

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