Lisboa

Viveram o inferno da guerra e agora cozinham para os que estão nos hospitais portugueses

Viveram o inferno da guerra e agora cozinham para os que estão nos hospitais portugueses

Ramia Abdalghani e Alan Ghumim, ambos com 36 anos, começaram em março a confecionar gratuitamente comida para os profissionais de saúde da área de Lisboa. O casal de refugiados sírios veio há quatros anos para Portugal e quis retribuir a ajuda que os dois tiveram em 2016.

"Assim que entrei em contacto com eles, limitaram-se a perguntar quantos éramos e para que horas queríamos que estivessem as refeições prontas", conta ao JN, Nuno Delicado, enfermeiro do serviço de Urgência do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central. Eles eram Ramia Abdalghani e Alan Ghumim, os proprietários do restaurante Tayybeh, em Moscavide, Lisboa. O casal de refugiados da Síria tem distribuído refeições gratuitas aos profissionais de saúde da cidade, quer estejam em casa com a família ou ao serviço numa qualquer unidade hospitalar. A solidariedade já chegou às bocas do mundo através de artigos nos jornais "The Independent" (Reino Unido) e no "O Globo" (Brasil).

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"Na altura em que viemos para Portugal, toda a gente nos ajudou. Deram-nos as mãos e receberam-nos muito bem", diz Alan Ghumim ao JN. Em tempo de pandemia, ajudar tornou-se uma obrigatoriedade e uma necessidade. E como fazê-lo? Cozinhando. O casal escreveu uma publicação nas redes sociais a informar que estariam disponíveis para fazer refeições gratuitas para os profissionais de saúde da área de Lisboa. Os pedidos chegaram e continuam até hoje.

"Quando as pessoas vêm buscar a comida, vemos os sorrisos, mandam mensagens a agradecer o que fazemos e dizem que a comida estava deliciosa. Isso dá-nos mais energia para continuar", esclarece o proprietário do Tayybeh. As refeições mantêm-se nos paladares da cozinha síria, mas reforçados com as exigências dos pedidos. Há pratos de carne (vaca ou frango) e vegetarianos, para quem não come proteína animal.

Com o restaurante aberto há um ano, os seis colaboradores tiveram de ser dispensados durante o estado de emergência nacional. Permanecem no Tayybeh apenas Ramia e Alan, que além desta iniciativa, garantem ainda as outras entregas de comida aos clientes regulares. Apesar dos apoios concedidos pelo Governo português ao setor da restauração, o casal está preocupado. "Não sei como vamos sobreviver".

Alan Ghumim ainda tem família na Síria: a mãe e o irmão, com quem fala por Skype e Facebook. Os problemas do país natal não são alheios, mesmo que a centenas de quilómetros de distância. "O problema na Síria é que nós não sabemos os números [Covid-19], não sabemos o que se passa lá. Vai ser um desastre", explica ao JN. A juntar à guerra civil, que dizima o país desde 2011, pode juntar-se uma outra catástrofe humanitária. De acordo com dados oficiais, os casos do novo coronavírus são quase inexistentes, mas os médicos estão preocupados com o surto pandémico no país.

Durante o estado de emergência nacional, o Governo português está a conceder cidadania temporária a todos os migrantes. Uma medida que não surpreende Alan Ghumim: "Nós víamos notícias sobre Portugal em 2015 e a forma como integravam as pessoas". O casal sírio não sabe que futuro os reserva em Portugal, mas nem por isso baixa os braços à solidariedade. "Somos refugiados, temos poucas coisas, mas se nós ajudamos, todos podem ajudar", conclui. Cada um à sua maneira.

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