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Morto pelo calor dentro do carro do pai

Morto pelo calor dentro do carro do pai

É um caso chocante: um menino de 4 anos morreu anteontem, domingo, o dia mais quente do ano, asfixiado de calor, fechado dentro do carro, à porta de casa. Aconteceu em S. Tomé de Covelas, freguesia de Baião, distrito do Porto, durante uma festa de família. A comunidade está em choque, mas o caso pode agora levantar investigação do Ministério Público. Em causa estará actuação parental negligente.

Era domingo de festa, o irmão mais velho fazia 8 anos, vieram primos, tios e tias e amigos da família e eram 28 ao todo a almoçar na casa de pátio da Rua do calvário, em S. Tomé de Covelas, freguesia que fica no fundo do vale do concelho de Baião, e que é a mais distante do seu centro de distrito, a 94 quilómetros do Porto. Era o dia mais quente do ano e o sol ardeu acima dos 40 graus.

Tiago, que faria 4 anos em Setembro, irmão do meio de Francisco, 8 anos, e de Rodrigo, 2 anos, desapareceu a uma hora indeterminada do meio daquela tarde, quando as outras crianças ainda brincavam e as mães arrumavam as mesas na sombra da festa. Desapareceu para o interior da carrinha Astra preta do pai, estacionada com outras no pátio de casa de onde se vê o vale, com jardim de couves tronchudas e rosas, e ali ficou, no carro preto, sozinho, fechado, adormecido ao sol. Até que deram pela falta dele, entre as 17 e as 18 horas.

Chamou-se, procurou-se, a mãe, Susana, 28 anos, o pai, Paulo Pinto Monteiro, 31 anos, as tias já aflitas, os tios, os primos, até os pequeninos que não se lembravam de o ver. Chamou-se e procurou-se, achou-o aflito o pai: estava aninhado inanimado dentro do carro, mas o carro era já uma fornalha viva, de temperatura infinitamente mais alta do que os 40 graus da tarde interminável de calor.

Em choque, aos gritos, já toda a gente junta e alvoroçada, o pai com o corpo febril e inerte do menino nos braços, o pai e uma prima, que é socorrista do Colégio Universal, efectuam manobras atormentadas de reanimação já dentro de casa. A criança volteia, vomita, abre os olhos, tem pulso, perde e ganha a consciência.

A cena aflita é contada pela tia do menino morto, Maria Palmira, que ontem, segunda-feira, chorava e amparava a irmã, mãe do menino, que agora esmorece e chora no alto da varanda daquela casa de pedra amarela, onde muita gente estremecia ao ouvir o choro rasgado de gritos agudos da mãe, que chamava por Deus e pelo pequenino, e o seu choro gritado sobrepunha-se a todo o silêncio do vale onde só ecoa o sino trazido pelo vento da igreja.

Vai passar meia hora desde a hora da descoberta fatídica até chegar a ambulância dos Bombeiros de Santa Marinha do Zêzere, que estão a 10 quilómetros dali, que o vão ver ainda com vida. E vai passar outra meia hora até que a criança é levada e assistida pela equipa da Viatura de Emergência Médica do Hospital do Vale do Sousa, que vem a caminho e os encontra mais acima, onde param, numa rotunda de Baião. Também eles vêem o menino ainda vivo, mas já fraco e sumido o seu pulso.

É aí, na berma da EN 108, após mais manobras sem fruto de reanimação, perante os pais desesperados que gritam de choque e não querem acreditar nem largar o menino, que Tiago perde todos os sinais vitais. É o que conta o tio Paulo, tio do menino, um homem grande e forte que foi atrás da ambulância de carro e que agora se deixa outra vez abalar porque vê novamente na sua cabeça os joelhos esfolados da cunhada Susana, tanto tempo ajoelhada no chão e nas pedras à beira do menino que já não responde a ninguém nem à mãe.

Horrorizada com aquele golpe, chocada de raiva, a família aponta a má sorte que é viver para morrer no interior do país das estradas pequeninas. E aponta a fraca assistência dos primeiros dois bombeiros: um não saberia conduzir nem socorrer, diz a família. E o tio explica a circunstância que levou a um acto irregular: o pai do menino é que conduziu a ambulância até ao encontro mais à frente com a VMER de Penafiel.

No quartel, os Bombeiros Voluntários de Santa Marinha do Zêzere não comentam, só o comandante José Miranda irá falar. Contactado por telefone, explicou ao JN que as regras de socorro foram respeitadas: "Todos gostaríamos que a ambulância voasse. Neste caso, foi pedido ao pai para conduzir para se poupar tempo, enquanto os dois bombeiros faziam as manobras devidas de socorro", disse o comandante, defendendo que "a corporação fez tudo o que podia fazer".

Mas o caso da morte da criança, e até a circunstância do seu socorro, pode agora sofrer investigação. A GNR foi ao local, falou com os intervenientes e elaborou um auto de notícia, que enviou para o Tribunal de Baião. Caso o Ministério Público o entenda, o processo poderá transitar para a Polícia Judiciária ou ser só simplesmente arquivado.

Em causa poderá estar a "quebra do dever contínuo de vigilância", diz ao JN Norberto Martins, Procurador-Geral da República. Segundo este especialista em direito de menores, "o Ministério Público terá que investigar com rigor em que circunstâncias tudo aconteceu". Mas sublinha que "tudo aconteceu num meio rural onde é habitual as crianças andarem a brincar na rua ou na casa de vizinhos".

Mas, por que entrou a criança sozinha para dentro de um carro e como permaneceu aí nesse calor comprovadamente infernal? "Porque não teve capacidade de avaliar a sua situação de risco", diz ao JN o pediatra Octávio Cunha, que explica a situação num cenário em abstracto. "A temperatura do corpo sobe muito e do ponto de vista respiratório há uma altura em que a criança não suporta o ar que respira. Meia hora é o máximo que poderá ter aguentado dentro de um carro fechado, ao sol, com 40 graus cá fora", sublinha o pediatra, que diz não haver estudos médicos sobre ocorrências assim.

Ontem, segunda-feira, ao final da tarde, o corpo do menino chegou à casa mortuária de S. Tomé de Covelas, ao lado do cemitério de onde se avista na curva funda o escuro rio Douro, onde há casas em cascata na encosta e do lado de lá já é Resende. A família saiu de casa e subiu o caminho num silêncio de pedra. Lá dentro, na capela quente, reza-se e grita-se e há um murmúrio contínuo de choro sobre o qual se ouve mais alto o choro da mãe, colada ao caixão a cambalear. Ela repete, desmanchada, abafada, à beira do desmaio, frases feridas que metem novamente gritos e Deus e o seu pequenino. O menino está no centro da sala, dorme vestido num fatinho bege, com uma camisa de mangas tufadas cor de rosa muito vivo, as mãos pequeninas cruzadas no colo, metido no caixão e o caixão é uma alcofa branca, e o menino dorme de olhos fechados e morto.

O funeral realiza-se esta terça-feira, às 19 horas, na Igreja de S. Tomé de Covelas.