Reportagem

Minas enterraram S. Pedro da Cova

Minas enterraram S. Pedro da Cova

Freguesia de Gondomar deu trabalho a milhares de pessoas de toda a zona Norte e até do Alentejo.

Quase 40 anos depois da exploração mineira ter encerrado,  passou a ser dormitório da Área Metropolitana. E para contar as memórias das minas já restam poucas vozes...

Quando Jerónima Santos fecha os olhos ainda consegue ouvir o som de máquinas a trabalhar, do carvão a encher as vagonetes, da sirene a chamar operários para o "buraco". Tinha 11 anos quando foi encerrada a exploração das minas de S. Pedro da Cova, Gondomar, corria o ano de 1970. Ficou o silêncio. Um silêncio pesado que ainda se sente na freguesia.

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Nos tempos áureos, as minas davam trabalho a gente do Douro Litoral, Minho e até do Alentejo. Chegaram a empregar mais de 1600 pessoas, entre homens, mulheres, rapazes e raparigas. De um dia para o outro, acabou tudo. Quase 40 anos depois, S. Pedro da Cova é um dormitório da Área Metropolitana do Porto, freguesia praticamente estagnada, com poucas aspirações e muitos dependentes do Rendimento Social de Inserção. O espírito de união e a identidade dos que ali viviam ("quase toda a gente tinha alcunhas") foi-se diluindo. São cada vez menos os que carregam memórias do tempo das minas.

O JN foi ouvir algumas dessas vozes que restam. Um mineiro, uma britadeira e um capataz (ler página ao lado). Recebem-nos com um sorriso, mas contam histórias de vidas tristes, de fome, de condições de trabalho miseráveis, de lutas sociais e da opressão do regime de Salazar.

"Era garoto, mas nunca mais me esqueci do dia em que vi os operários a saírem enfarruscados da mina, com os seus trajes pobres, exaustos, e serem conduzidos para as carrinhas azuis da PIDE", conta Rui Fonseca, 58 anos, licenciado em História e filho de um engenheiro de minas que se fixou na freguesia em 1943.

Apesar de ter melhores condições económicas, Rui Fonseca cresceu com os filhos dos operários das minas, frequentava a mesma escola e a casa deles. "Viviam com muitas dificuldades. A maioria dos miúdos de hoje, não faz ideia do sofrimento dos seus antecessores", continua.

O carvão de S. Pedro da Cova foi descoberto em 1795, mas só nas primeiras décadas de 1900 é que a exploração das minas atingiria o apogeu, com uma extração de cerca de 330 mil toneladas por ano. O carvão era transportado para o Porto, mais concretamente para o Monte Aventino (zona das Antas), em pequenos vagões, suspensos por um cabo aéreo, com nove quilómetros de extensão. No regresso, as vagonetes paravam na estação de Rio Tinto para carregar a madeira que servia para escorar as paredes subterrâneas. Na segunda metade do século XX, a chegada do petróleo põe um fim à história do carvão.

Nas minas de S. Pedro da Cova trabalharam famílias inteiras. Muitas deixaram a agricultura em busca de melhores condições de vida. "Era uma fila enorme para as inscrições", recorda Aurora Dias, 89 anos, 27 dos quais a transformar o carvão em brita ou em briquetes.

Os homens entravam para as minas por um elevador ("jaula") encastrado no que é hoje o Cavalete de S. Vicente e desciam quase 94 metros. O lugar mais fundo ficava a 450 metros de profundidade e só se atingia a pé. "Levavam o farnel ao ombro, o gasómetro numa mão e o machado na outra", conta Rui Fonseca. Da "jaula" seguiam, descalços sobre as pedras afiadas, para as suas frentes de trabalho, onde picavam as camadas de carvão durante oito horas. "O trabalho tinha de ser muito bem feito, senão ficavam soterrados", relata Rui Fonseca. Quando o elevador subia, devagarinho, e os homens cá fora falavam baixo uns com os outros, Aurora Dias já sabia o que aí vinha: "Era morto ou aleijado", recorda.

A muitos mineiros, não se sabe quantos, nem a Santa Bárbara lhes valeu. Se não morreram soterrados, ficaram com sequelas irreversíveis nos pulmões. A imagem da padroeira, retirada do fundo da mina quando a exploração cessou, foi entretanto recuperada. "Mandámos restaurá-la e fez-se a capela", conta Jerónima Santos, professora e sobrinha de Aurora Dias. Por trás da capela ergue-se o Cavalete do Poço de S. Vicente, quase em ruína, à espera que alguém o recupere e o transforme num museu vivo, com possibilidade de descer à mina e experimentar a sensação de "trabalhar enterrado", como os mineiros diziam.

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