Lousada

À boleia de vários países até festival em Lousada

À boleia de vários países até festival em Lousada

O nome não engana. Foi mesmo de polegar no ar que a maioria dos participantes chegou ao HitchFest - Festival da Boleia que está a decorrer, até amanhã, num parque de lazer junto ao Rio Sousa, em Cernadelo, Lousada.

São de várias nacionalidades e muitos percorreram milhares de quilómetros para ali estar. É o caso de Vojtech Jakoubek, de 21 anos, que veio à boleia desde a Bélgica, percorrendo cerca de 1900 quilómetros. Já tinha vindo ao primeiro HitchFest, há dois anos, no Marco de Canaveses, e quis repetir a experiência. "Demorei duas noites a chegar aqui. Fico nas estações de serviço e vou pedindo boleia às pessoas na direção em que vou. Na primeira noite vim de Bruxelas até Bordéus. Fiquei lá com um amigo e depois vim em direção a Portugal", conta.

Andar à boleia já não é novidade para este jovem natural da República Checa. "Comecei aos 16 anos a apanhar boleias e nunca tive uma má experiência. Fui com um amigo até Roma. Um ano depois fui até França à boleia porque estava a aprender francês e queria praticar. No ano a seguir fui à boleia desde Marrocos até França e depois até à República Checa", contou. Mas a boleia faz também parte do seu dia a dia e não só em viagens longas. "Não quero gastar dinheiro num carro para já e viajar assim é prático. Apanho boleias pelo menos duas vezes por semana", refere Vojtech Jakoubek.

Medos, há sempre, para quem pede e para quem dá boleias, admite. "Como posso escolher as pessoas a quem peço boleia não tenho receio porque mesmo quando alguém pára eu posso recusar. Já recusei", dá como exemplo.

Ideia semelhante partilha Bárbara Silva, de 25 anos, que veio à boleia de Aveiras de Cima. "Quando andamos à boleia nunca sabemos o que esperar do outro lado. Muitas das vezes temos de ter bom senso e saber recusar a boleia quando não nos sentimos confortáveis", defende.

Também para ela esta forma de se deslocar não é novidade. "Costumo andar à boleia, mas não tanto em Portugal. Uso mais esta forma de transporte no estrangeiro", confessa. "Acaba por ser improvável o que encontramos pelo caminho, mas muitas vezes é bom. Andar à boleia permite comunicar muito mais com as pessoas e partilhar histórias", sustenta a jovem.

Desta vez, Bárbara Silva diz que a experiência foi boa. "A primeira boleia que apanhei levou-me de Aveiras de Cima ao Porto. Eram dois rapazes russos e apenas um falava um pouco de português. Pouco comunicamos porque eles não falavam inglês. Houve depois uma senhora que quando a abordei me disse "nunca fiz isto na vida, nunca dei boleia a ninguém, mas mal te vi ali parada disse que era hoje". No final, estava quase a chegar ao destino e abordei uma caravana na área de serviço e encontrei uma pessoa que tinha conhecido num festival há cinco anos", disse.

"Ando de boleia há vários anos e fico muito contente por em Portugal haver um festival como este, que junta pessoas de todo o mundo numa comunidade onde somos uma família", garante Bárbara, que espera repetir a presença no festival.

Natural de Israel, Maayan Fux, de 45 anos, veio para umas férias em Portugal há quatro meses. "Não tenho por hábito visitar apenas os locais turísticos. Andava à procura de algo diferente e conheci uma amiga no sul que me falou deste festival e apanhei boleia com ela para vir para cá", recorda. Está em Lousada desde quarta-feira. "Isto é lindíssimo, a atmosfera é tão relaxante e as pessoas são amigáveis e estão prontas a partilhar. Eu também já ofereci um workshop. Acho que precisamos mais disto no mundo, destas comunidades saudáveis", alega.

Durante os últimos quatro dias, centenas de participantes partilharam saberes e experiências num evento que mistura viagems, ecologia, ativismo, autodescoberta e consciência e onde não são cobrados bilhetes, mas cada um é convidado a contribuir com donativos.

O HitchFest nasceu da iniciativa de quatro jovens apaixonados pela viagem - que não se conheciam entre si e eram de diferentes pontos do país - e a primeira edição decorreu há dois anos no Marco de Canaveses. Por lá passaram mais de mil pessoas, oriundas de 45 países diferentes. "Esta edição vai superar isso", acredita Francisco Pedro, um dos responsáveis pela organização.

O grande objetivo do evento é "celebrar a viagem, celebrar a vida e dar a oportunidade às pessoas de se conhecerem a si próprias e se abrirem mais", defende Francisco Pedro, salientando a vertente da ecologia e respeito pelo planeta, sempre presente.

Este ano, encontraram apoio logístico na Câmara de Lousada, depois de bater a algumas portas, e organizaram um "crowdfunding" que angariou cerca de 4500 euros.

Diariamente realizam-se workshops de meditação, canto, dança, e ecologia. E há sempre música.

Francisco Pedro também viaja quase sempre à boleia. "É esticar o polegar e ver o que vai acontecer. Andar à boleia é um fenómeno que está a crescer em Portugal", garante.