Eleições autárquicas

Matosinhos com o crude na boca

Matosinhos com o crude na boca

Encerramento da refinaria da Galp dominou o debate promovido pelo JN entre os candidatos à Câmara Municipal. Luísa Salgueiro, presidente e recandidata, rechaça críticas pela intervenção de António Costa na campanha, insiste na inocência da Câmara e do Governo, responsabiliza a empresa e declara-se pela transição justa, a favor dos trabalhadores e da requalificação dos terrenos para "projetos de atividade económica". "Não haverá especulação imobiliária", garante a autarca.

No debate decorrido nesta tarde de segunda-feira, no Ateneu Comercial do Porto, Luísa Salgueiro, presidente da Câmara Municipal de Matosinhos e recandidata ao cargo pelo PS, foi alvo de todas as críticas dos restantes concorrentes e de mais um impacto gerado pelo fecho da refinaria de Leça, verificado com a intervenção de António Costa no comício de apoio ao PS, no domingo, durante o qual o primeiro-ministro assacou à Galp todas as responsabilidades socioeconómicas decorrentes do fecho da refinaria.

"O secretário-geral do PS - como Luísa Salgueiro sempre se referiu a António Costa, para desobrigar o primeiro-ministro da imparcialidade exigida ao cargo - não podia vir a Matosinhos e ficar alheio ao que se passa. As declarações do secretário-geral do PS foram produzidas no local certo, onde serão aplicados os fundos de transição justa. A Câmara e o Governo não souberam de nada. A decisão da Galp é irreversível. É inadequada e inoportuna. E também por isso, este terá de ser um processo exemplar. Terá de ser um exemplo para outros casos suscitados pela transição energética, que vão ter de ocorrer, tanto em Portugal como na Europa. Os trabalhadores que perderam os seus empregos terão de ser os primeiros beneficiados e espero que o Governo antecipe, já este ano, os fundos de transição justa que só chegarão em 2022", disse a presidente da Câmara.

A candidata do PS afasta, ainda, qualquer veleidade negocial para os terrenos da refinaria: "Quem decide é a Câmara. Comigo, a Câmara só aprovará projetos de atividades económicas. A Câmara não alterará o PDM e, portanto, não haverá ali nenhum projeto imobiliário", garante Luísa Salgueiro.

Tautau e lágrimas

Peça do equilíbrio que gere o município desde 2017, José Pedro Rodrigues, candidato da CDU e vereador encarregado dos pelouros dos Transportes, Mobilidade e Proteção Civil, logo se juntou às críticas a António Costa. "Durante nove meses, o primeiro-ministro nunca recebeu os trabalhadores, mas, agora, nove meses depois do anúncio do encerramento, a uma semana das eleições, vem a Matosinhos para esta farsolice, como se diz no Norte. Agora, acusa a Galp. Vai dar tautau?", afirmou e questionou o candidato da coligação PCP/PEV, que anuncia "um desastre para Matosinhos, para o Norte e para a soberania industrial do país".

"O que está a suceder é que 500 milhões de apoios nos últimos anos estão a ser ali desmantelados", acrescenta José Pedro Rodrigues.

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Carla Silva, deputada municipal e candidata do Bloco de Esquerda, acrescentou mais crítica: "Isto é a maior hipocrisia, a nível nacional e local. Ver o primeiro-ministro a fazer este papel, de lágrimas de crocodilo no semblante, em plena campanha eleitoral, diz tudo. Não engana o povo".

"O Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia Municipal voto de repúdio à Câmara e ao Governo. Ambos têm culpa. O Governo especialmente, porque é o segundo maior acionista da Galp e, por isso, tem responsabilidades acrescidas. Esta decisão vai criar dependência externa e reforçar a desindustrialização de Matosinhos e, por outro lado, criar ainda mais danos sociais, como o flagelo do desemprego que tem acometido Matosinhos", afirmou a candidata do Bloco.

Bruno Pereira, PSD/CDS: "Não aceito o lítio"

Para candidato da coligação PSD/CDS, "há quem continue a tapar o sol com uma peneira". "A empresa tem de dizer o que quer para aqueles terrenos e a Câmara se quer ou não aprovar projetos no mesmo espaço", disse Bruno Pereira.

"Estamos a falar de 1500 ou 1600 postos de trabalho, diretos ou indiretos. E duvido que a Câmara não soubesse dos planos da empresa. Lembro que o Governo, na pessoa do ministro do Ambiente, abriu a possibilidade de instalação de uma refinaria de lítio naquele espaço. Uma coisa é certa: eu, como presidente, o que vai suceder a partir de 27 de setembro, não aceito o lítio", acrescentou o candidato "laranja"..

O advogado de 36 anos também considerou que "o maior problema de Matosinhos são os 45 anos de governação socialista". A sentença gerou repique imediato da presidente da Câmara: "É o resultado da democracia e do voto das pessoas", interveio Luísa Salgueiro.

Por seu lado, o independente António Parada, ex-presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos, não se conteve: "1500? Se calhar vão é ser cinco mil postos de trabalho perdidos. Não conseguimos avaliar os impactos a médio e longo prazo".

E Nuno Pires, cabeça de lista do PAN: "Não podemos falar em transição energética, porque os interesses são outros. A transição energética não pode ser feita sem planificação e muito menos à custa dos trabalhadores".

"Os matosinhenses precisam de saber o que será feito nos terrenos da refinaria. Não aceitamos que ali fique um cemitério industrial", considera Humberto Silva, da Iniciativa Liberal.

O candidato do Chega, Israel Pontes, reclama a dianteira - "Fomos os primeiros a estar ao lado dos trabalhadores, mesmo com algumas dificuldades, impostas pelos sindicatos" - e propõe "a solução idílica", que é "a criação de uma zona industrial, com prioridade de trabalho para as pessoas que perderam o emprego".

Finalmente, outro independente, Joaquim Jorge, encerrou o debate com uma tirada conciliadora: "Quero pedir-vos que tirem uma fotografia comigo. Não tem de ser uma fatalidade!...", afirmou o biólogo de 63 anos, fundador do Clube dos Pensadores, a esgotar a incompatibilidade com Luísa Salgueira e a tutear a ex-aluna, a quem criticou a suposta inoperância no caso Galp.

"Tu sabes bem, Luísa, que há um estudo de Murteira Nabo, desde 2005, que previa o encerramento até 2010. Mas a Câmara não fez o TPC, os trabalhos para casa. Deviam ter sabido antecipar os problemas para um parto sem dor", concluiu Joaquim Jorge.

"Um túnel sob a Circunvalação"

JotaJota, como também se trata o candidato independente, defendeu, ainda, a criação de "um túnel sob a Circunvalação", para resolver os problemas de circulação e de mobilidade no concelho, que diz estar desenvolvido a duas velocidades. "S. Mamede parece Trás-os-Montes de Matosinhos".

Outros candidatos, como Bruno Pereira, do PSD, reclamam "soluções mais simples", como o afundamento da linha do metro em zonas de conflito rodoviário, como a Avenida da República. "Em vez de novas linhas, era bem melhor e mais em conta fazer retificações na rede atual, com túneis de 200 ou 300 metros", propôs o candidato "laranja".

"E com que dinheiro?", perguntou Luísa Salgueiro. Além da mobilidade, a presidente da Câmara acrescenta as alterações climáticas e a habitação ao triângulo das prioridades. O alojamento social está no topo: a Câmara é senhoria de 4325 casas e 10% dos 175 mil habitantes de Matosinhos residem em habitação social. "O nosso plano é cumprir a Estratégia Local de Habitação. Estão previstos 57 milhões de euros para reabilitação de bairros sociais, sobretudo ao nível da eficiência energética. Mas a resposta é o programa de renda acessível. Temos de construir 1200 casas", disse Luísa Salgueiro.

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