Solidariedade

Polícia gere comunidade que dá a mão a quem mais precisa

Polícia gere comunidade que dá a mão a quem mais precisa

Quando criou o grupo de Facebook "A família do Etoo" para "trocar umas ideias" sobre apostas desportivas com "meia dúzia de amigos" da esquadra, Ricardo Afonso estava longe de imaginar que a página ia ter um registo solidário.

"Comecei a receber muitas mensagens a dizer que poderíamos utilizar a página para ajudar quem mais precisa", conta o agente da Polícia Municipal de Matosinhos, de 37 anos, ao JN.

E assim foi. A comunidade do "Etoo" (numa alusão ao ex-jogador Samuel Eto'o de quem Ricardo é fã incondicional) depressa cresceu e já ajudou dezenas de pessoas. "Em 2017, oferecemos imensos brinquedos ao IPO do Porto, no Natal. A partir daí, foi uma bola de neve. Nunca mais paramos", revela.

Hoje o grupo tem mais de 26 mil membros de todo o país e além-fronteiras, que se ofereceram para estar ao lado de Ricardo nesta missão solidária.

"Quando dei por mim estava a construir casas de banho, a tirar sem-abrigo das ruas. É um vício", reconhece Ricardo, que quase sempre tira um dia da semana só para ajudar sem-abrigo. "Levanto 100 euros e vou distribuir dez por cada um", diz.

A máquina está de tal maneira oleada que as histórias já lhe chegam naturalmente e já não há dedos para as contar. "Com a pandemia da covid-19, os pedidos aumentaram drasticamente e estão mais relacionados com a fome", nota.

Mas há outros casos: "Recentemente recebemos um alerta de uma miúda que tinha de ser operada de urgência. Entramos em contacto com um hospital privado, reunimos o dinheiro e ela foi operada", conta. Há, inclusive, quem já tenha ajudado as suas causas e agora necessite de auxílio. "Eu confirmo sempre as situações. A minha profissão também ajuda", refere.

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Para evitar receber donativos avultados (ainda que priorize bens físicos), Ricardo apenas disponibiliza o NIB quando lhe é solicitado pelos membros. No entanto, torna sempre públicos os donativos por uma questão de transparência.

"Gosto de ir recebendo mediante as causas que vão aparecendo", sublinha. Sobre a causa em si, Ricardo faz, no entanto, um reparo: "Nós não resolvemos problemas, mas ajudamos a minimizá-los", reiterando que muitas solicitações são encaminhadas, por exemplo, para as entidades competentes ou para a ação social.

"Fazemos também o acompanhamento no sentido de referenciar os casos e de criar alguma pressão. Apesar de ser um grupo fechado, já tem um certo mediatismo e pode chegar a quem de direito", adianta.

Para acudir os outros nas folgas, Ricardo abdicou de fazer horas extras enquanto polícia. "A não ser em último recurso para bem do serviço", salvaguarda. No entanto, deixa claro que não quer os holofotes virados para si e que quer manter o crescimento do grupo controlado para não "estragar a essência" da comunidade.

Ainda assim, não esconde o desejo de elevar a fasquia. Por isso, está a ponderar criar uma instituição dedicada à beneficência ainda este ano. "Tenho recebido contactos nesse sentido [para o fazer]", revela. Mas mostra algumas reticências: "Uma fundação engloba ter que registar algumas pessoas e, hoje em dia, ter alguém da nossa inteira confiança não é nada fácil", finaliza.

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