Cinema

Batalha classificado mas sem projeto que lhe dê vida

Batalha classificado mas sem projeto que lhe dê vida

Está classificado como monumento de interesse público desde 2012, mas continua fechado e sem projeto que faça prever a sua viabilização. Assim vive o Batalha, em tempos uma das mais concorridas salas de cinema do Porto: com um título e, ao mesmo tempo, com uma espécie de condenação à morte. A empresa proprietária diz que a classificação só tem contribuído para desvalorizar o imóvel.

O Batalha está sem atividade regular desde 2010, quando o Gabinete Comércio Vivo (uma parceria entre a Associação dos Comerciantes e a Câmara) o devolveu aos donos, a empresa Neves & Pascaud, depois de cinco anos de exploração. Volta e meia há um evento que o faz reabrir, mas na maior parte do tempo é para os sem-abrigo que a porta principal tem serventia. Projetos em concreto, não há.

"Nunca poderá voltar a abrir como cinema. É uma ilusão. Não há condições nem viabilidade económica", afirma ao JN Pedro Araújo, representante da empresa, acrescentando que "o processo de classificação criou um ónus sobre o imóvel que tem inviabilizado muitas soluções que são propostas". A mesma opinião tem Nuno Camilo, presidente da Associação dos Comerciantes do Porto desde 2009. "O imóvel está condicionadíssimo pela classificação", diz, sublinhando que "é preciso defender o património, mas também a viabilidade".

Parecer e acompanhamento

As intervenções no património classificado estão limitadas pela Lei 107/2001, de 8 de setembro. Qualquer obra, no interior ou no exterior, e mesmo a mudança de uso suscetível de afetar o edifício carecem de parecer prévio e do acompanhamento do organismo competente, no caso a Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN).

Em declarações ao JN, António Ponte, responsável pela entidade, disse que "a DRCN está disponível para, em conjunto com os proprietários do imóvel, analisar os eventuais processos que se entendam promover no sentido da revitalização daquele espaço". Sublinhou que as limitações às intervenções "não são uma soma matemática" nem são discricionárias, antes ponderadas. Questionado sobre a hipótese de a sala ter outra atividade, referiu: "Os fins podem ser vários. Tudo depende do projeto".

Pedro Araújo garante que a Neves & Pascaud "tem tentado encontrar soluções" e que "da parte da Câmara Municipal do Porto tem havido todo o empenho", mas não referiu em que termos. Nuno Camilo, por seu lado, defende que devia ser a Autarquia a gerir o edifício, criando uma casa da juventude ou deslocando para lá serviços. "Ficaria com mais uma sala de espetáculos sem ter de adquirir o imóvel", sugere. No entanto, fonte oficial refere-nos que "a Câmara do Porto não quer adiantar qualquer informação sobre esse assunto".

Transformar o Batalha num "espaço de música e restauração" seria viável, no entender de Francisco Brito, diretor do vizinho Hotel NH Collection. Lamenta que o edifício esteja a degradar-se, "numa praça que está a ter um esforço dos privados para se renovar" devido ao "relevante interesse turístico". Francisco Brito afirma ter conhecimento de investidores interessados em dar ao edifício um uso diferente. "Mas o facto de não permitirem mexer no interior torna impossível qualquer tipo de negócio que não seja manter um auditório de 800 lugares", conclui.

Alheios às hipotéticas soluções, os pequenos comerciantes da zona lembram os tempos áureos do cinema. "O Batalha chamava muita gente. Assim, não", queixa-se Isolina Esteves. Com uns respeitáveis 82 anos, mais um do que Manuel Rosa, o marido, Isolina sentencia: "Estão a deixar morrer isto". Manuel responde com um olhar saudoso. Ambos frequentaram aquele e outros cinemas da cidade e acreditam que O Nosso Mercado, negócio da família, só teria a ganhar com a reabertura do espaço.

Alberto Ribeiro instalou-se há 20 anos na Rua de Santo Ildefonso, onde tem duas lojas de lingerie. "Pela Batalha passava todo o movimento da cidade do Porto", recorda. Hoje, a realidade captada pelos seus olhos é muito diferente: "Além dos jardins que nos tiraram, a praça é muito mal frequentada".

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