Celebração

A cidade vai nua: este ano o S. João não passa do portão

A cidade vai nua: este ano o S. João não passa do portão

Festa secular nunca tinha sido cancelada, nem no Cerco do Porto, nem na Patuleia, nem na pandemia de 1918. Até hoje...

Éramos um só. E mergulhávamos "na imensa maré de gente, subitamente barulhenta, afetuosa, entre bombos e morteiros e balões, alecrim, erva-cidreira, alho-porro, fogo preso ao céu". E íamos "num semovente frenesim carnal que afaga, como uma vaga, toda a cidade", "até que a vertigem e aturdimento da noite anónima nos engolisse também". Éramos a "desordenada multidão, na gritaria, na eufórica desrazão, no dichote, na imprecação". E "íamos apaixonados, levados num impreciso roteiro de abraços, orgíaco e pagão". E trocávamos "graças, sorrisos, abraços, a cantar e a empurrar também, exuberantes, inocentes, generosos, fraternos, vertiginosos".

Éramos um só, sabia Manuel António Pina, o eterno poeta e cronista e jornalista do JN. E éramos felizes, e sabíamo-lo, e éramos imortais.

Mas, subitamente, a cidade enche-se de silêncios, não cantamos, não gritamos, não cheiramos, não há nada, as ruas estão cheias de ninguém. O que sucedeu? Ficamos nus, como a cidade, emudecemos: o S. João, o dia da "noite mais longa do ano", o dia do solstício do Verão, o S. João foi cancelado, dissolveu-se, aboliu-se, está anulado. Aconteceu-nos isto: caiu-nos do céu sobre a cabeça a pandemia e o vírus da covid-19, a doença respiratória altamente contagiosa, demasiadamente mortal, que já infetou 9 101 398 pessoas em todo o Mundo e matou até agora 471 575 delas, incluindo 1534 em Portugal.

Resistir: O S. João é interior

Obrigados à distância social, com tudo derrogado - cafés fecham às 19 horas, restaurantes às 23, ninguém pode vender para a rua, os transportes públicos reduzidos, a ponte vai fechar, à meia-noite não haverá fogo no céu -, o que faremos? O que agora fazemos sempre neste novo mundo anormal: vamos ficar em casa.

A Câmara do Porto lançou uma campanha e avisou a população. "Grão na asa? Festa em casa". "Arraial? Só meia dúzia no quintal". "A festa é como a sardinha, quer-se pequenina". E para que não restem dúvidas sobre a situação: "No S. João, fique ao portão".

Mas o que é que isto nos faz à psique, isto é, à alma, à mente, ao coração? Jorge Cunha, teólogo, cónego da Igreja de S. João da Foz, sorri com os olhos atrás da máscara pandémica azul, como quem sabe um segredo. "O aspeto multitudinário, o da multidão visível, esse este ano deixa de existir e temos que o respeitar. Mas o profundo, esse não. O S. João é telúrico, está há séculos enraizado em nós. E mesmo sem afetos, sem abraços, sem fogueiras, vamos celebrar, porque esta festa, e não há outra como esta, é da alma. É lá que há S. João, no nosso interior, no nosso coração".

"Que remédio! Temos que resistir", diz agora Germano Silva, historiador do povo e o mais antigo jornalista do JN, aqui entrado em 1965, ainda em ação. Mas isto já aconteceu alguma vez na História, Germano, não haver assim S. João? Germano garante que não. "Nem no Cerco do Porto, que durou de 1832 a 33, sob a metralha constante dos Miguelistas, nem aí deixou de se fazer S. João. Nem na Guerra da Patuleia, imagina, tudo à batatada, os da rainha D. Maria contra os da Carta Constitucional, nem assim a festa se cancelou. Nem sequer na pandemia da gripe espanhola, de 1918 a 19, que matou milhões no Mundo e milhares em Portugal, nem aí! O S. João, que já no séc. XIV se celebrava, diz-nos Fernão Mendes Pinto, e até já havia mais lá atrás, nunca o S. João tinha sido cancelado! Até hoje".

E para o ano: vingança!

Quem hoje descer à Ribeira do Porto apanha um susto de silêncio e solidão. No meio vazio da esplanada, descoroçoada, Bela Palavrinhas, icónica e resistente, ali nascida, criada e que ali continua a montar a banca e a viver, não sabe falar se não com o coração: "Não é triste? A mim, que amo o meu Porto, a minha Ribeira, o meu Douro, o meu S. João, isto só dá vontade de chorar". Nem é só o dinheiro que a Ribeira, "com o turismo abaixo de zero", não está a fazer, é mais fundo: "Aqui somos muito beijoqueiros, precisamos de tocar, de abraçar...e não podemos! Isto não dá saúde! Dá é trauma. Mas é com isto que temos agora que viver", diz a Bela russa, conformada, sem conseguir sorrir.

Rui Barros, presidente do histórico Guindalense, clube de futebol e paradisíaca esplanada que todos os anos junta milhares de pessoas que ali vão foliar até o dia raiar, já se conformou. Olha à volta, vê a Muralha Fernandina, a jóia gigante filigranada da Ponte Luís I - dali quase se pode tocar com a mão -, vê o rio lá em baixo espelhado a azular. "Este ano fechamos às 19 e vamos para casa, em família. Temos que ser responsáveis. E vamos ser. Não há nada a fazer. Tem que ser". Rui atira os olhos ao céu, vê o futuro, é lá que já quer ficar: "Só há uma forma de aguentar isto, é pensarmos na desforra. Este ano não fazemos nada, mas para o ano vamos vingar-nos! E o S. João que aí vier, vai valer por dois! Ou por três! Vai ser lindo! Vai ter que ser!".

PSP atenta aposta em mais agentes na rua

A PSP apostou num policiamento de visibilidade, com mais agentes na rua, para a noite de S. João que, no Porto, coincide com o jogo de futebol entre o F.C. Porto e o Boavista. Fonte da PSP recorda que a noite de S. João também motiva festejos em Gaia, particularmente na Afurada, e em Vila do Conde. "Vamos estar atentos com o intuito de cumprir com a missão de garantir as condições de segurança e tranquilidade públicas. Apelamos a todos que adotem comportamentos responsáveis e adequados", sublinha a PSP.

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