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A greve dos tecelões que conquistou a cidade

A greve dos tecelões que conquistou a cidade

"Parece-lhe [ao Sr. Azeredo] que a actual greve dará um cataclismo que ha de ficar na historia", escreveu-se na edição do JN do dia 6 de junho de 1903. Não se enganou, portanto, o "Sr. Azeredo" de que "a marcha dos famintos", que levou 20 mil operários às ruas do Porto, ficaria para a história como uma das greves mais impactantes de que há registo, também por motivos que, à época, eram singulares: fugiu à violência e garantiu apoio da imprensa portuense, nomeadamente do JN.

A greve teve início numa fábrica de tecidos na Rua do Bonjardim, depois dos tecelões se sentirem prejudicados com as condições em que trabalhavam. O protesto propagou-se rapidamente com a adesão de mais operários portuenses.

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Inicialmente, a greve dos tecelões nada teve de diferente das restantes, sendo marcada por episódios de violência. Mas os desacatos acabariam por ser arredados da luta dos trabalhadores. No dia 28 de maio de 1903, o JN já dava conta que algumas fábricas portuenses continuavam sob vigia de "guardas civis e as ruas patrulhadas por cavallaria municipal". A força policial que reprimia os grevistas esteve patente nessa edição, com a história da jovem Infantina Rosa, uma trabalhadora da Fábrica de Salgueiros que foi "presa injustamente" num dos protestos. Foi a própria que contou ao JN as injustiças que vivia na fábrica, onde trabalhava "das 7 às 7": "Quatorze horas por dia, tendo uma hora para jantar que, as vezes, é roubada".

Os tecelões acabaram por conseguir a vitória das suas principais reivindicações ao mostrarem a sua própria miséria pelas ruas da cidade. Na edição de 6 de junho, descreveu-se que a "praça [de D. Pedro] e os arredores ofereciam um trágico aspeto, pela inumera e incessante quantidade de famintos que alli se agglomerava". O desfile de 20 mil operários despertou a "caridade de toda a cidade do Porto para com os grevistas e que se resolveu em esmolas de todo o genero".

Nesse dia, a Cozinha Económica ficou "cheia de operários e fiandeiras" depois de o JN ter atribuído senhas para os grevistas poderem comer no estabelecimento. O cenário era de "creancitas chorando por pão, mães fasendo esforços por que elles se calassem, tivessem paciencia, que já iam comer, alguns paes com pequenitas ao colo, deixando de comer para dar aos pequenos que pediam o caldito".

No dia 19 de junho o título que sobressaiu no JN foi "Fabrica Parada". "Se as maquinas não arquejam, o seu coração [do operário] não bate", lê-se na íntegra, constatando que os operários ficaram, temporariamente, sem o seu "sustento", apesar de conquistarem a cidade do Porto.

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